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Arlete e Amauri, os doutorandos
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Arlete, que tinha afinidade por exatas, formou-se em física aos 20 anos. Emendou com o mestrado e, em seguida, entrou no doutorado em física quântica. Entretanto, por mais estranho que pudesse parecer aos olhos dos colegas de curso, era apaixonada por poesia. E não pense você que aquilo era da boca para fora, já que a mulher tinha por hábito declamar diariamente Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, passando por Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Drummond, chegando aos contemporâneos Daniel Marchi, Sarah Munck, Luzia Couto e a inquieta Simone Magalhães.
Enquanto estudava o comportamento de átomos, elétrons e fótons, a mulher conheceu Amauri, que também era doutorando, mas em geopolítica. E, a despeito de temas distantes, os dois acabaram por engatar um namoro com direito a ardentes momentos, ora no cafofo da moça, ora no aconchego do rapaz. E aquele emaranhado, por mais esdrúxulo que pudesse ser aos olhos de outrem, funcionava que era uma beleza.
Entre o trajeto diário para a UnB, o casal gostava de apreciar um bom café. Coado, naturalmente, já que os jovens eram terminantemente avessos à brevidade de cápsulas ou até mesmo ao tão requisitado expresso. E nesses momentos faziam questão de só falar de coisas importantes.
— Sabe uma coisa que percebi hoje de manhã?
— O quê?
— Seus olhos combinam com os meus.
— Como assim, Amauri?
— Os seus são castanhos escuros, enquanto os meus são verdes.
— Hum… Isso eu sei, mas não entendi a relação.
— Você é que nem o caule, a parte que sustenta a nossa relação. É a razão, enquanto sou o sonho, longe do solo.
— Hum… Mas, sem o verde das suas folhas, a minha vida não seria doce.
O romance, apesar da enorme carga horária de estudos, vingou, a despeito dos que diziam que não resistiria a um semestre. E, por coincidência ou predestinação, a defesa das teses ocorreram no mesmo dia, uma sexta-feira, sendo a do Amauri logo nas primeiras horas da manhã, enquanto a da Arlete aconteceu no início da tarde.
Os dois foram aprovados com louvor, o que levou a uma comemoração regada a espumantes. Apagaram bem pra lá de Bagdá e, no dia seguinte, o sujeito foi o primeiro a despertar. Ele preparou duas xícaras de café bem forte.
Em pé diante da cama, Amauri percebeu as pálpebras da amada se abrirem. Um sorriso logo se fez nos lábios da Arlete.
— Meu amor, conseguimos!
— Sim, minha linda! Conseguimos! Fiz café pra você.
— Hum… Muito obrigada!
— Quer comer alguma coisa?
— Agora não. Mas se você for à feira mais tarde, por favor, me traga um quilo de neurônios.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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