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Palavra estranha

Armarinho

Publicado

Autor/Imagem:
Luciana Assunção - Texto e Foto

Armarinho. Acho estranha essa palavra para definir as lojas do ramo. Deve mesmo se originar dos pequenos armários ou estantes onde eram guardados os materiais miúdos como linhas, botões, agulhas etc., nas antigas casas onde sempre havia uma sala de costura na qual as mulheres pintavam e bordavam (literal e metaforicamente, pois não se enganem: as pessoas do gênero XX nunca foram 100% bobinhas).

Sem dúvida é um lugar fascinante o tal armarinho. Estão para as mulheres como as lojas de ferragens estão para os homens. A atração do mulherio é grande por todas aquelas miudezas: fitas de cores e larguras abundantes; botões de infinitas utilidades; zíperes (lembrei da amiga que gosta dessa palavra); rendas, ilhoses (outra palavra incrível não?); extensores para sutiãs, novelos e demais bugigangas que podem ir de fantasias de carnaval e derivados (lantejoulas – mais uma palavra divertida – penas, plumas, purpurinas) aos cortes de tecidos.

Eu que nunca costurei nem uma barra sequer e mal sei pregar um botão de camisa, adoro entrar num armarinho, pois rima com burburinho. A mulherada ensandecida a comprar 1 metro disso, uma dúzia daquilo, três pacotinhos daquilo ali. Os balcões às vezes lotam e as atendentes se desdobram para medir – com aquela régua de madeira carcomida tão característica desses estabelecimentos – o pedido da cliente que quer levar dois metros de gorgurão (eita que o armarinho engloba um léxico instigante) lilás.

Na época do Carnaval, essas microempresas ganham fôlego extra. Ontem, entrei numa que estava pululante no quesito animação (para as vendedoras e para o proprietário). Que guria não quer customizar uma fantasia antiga, comprar um adereço da moda, garimpar uma possível ideia para arrasar no bloco de rua?

Aviamentos. Sinônimo de armarinho. Também acho esquisito. Me remete a uma loja de artigos para aves. Seria mais lógico para mim se fosse mundo de “alinhavamentos”, afinal, temos o verbo alinhavar (ajustar ou coser com pontos largos). Aviar é expedir, executar. OK, as mulheres talentosas que fazem tricô, crochê, tapeçarias e roupas são expeditas e executoras, porém não enxergo a ligação direta entre o verbo e o substantivo no caso em questão.

De toda sorte (ou azar), não sou Guimarães Rosa ou Manoel de Barros. Não posso sair por aí propondo neologismos que vão parar nos panteões da língua materna. Mas, se um dia abrir um armarinho, nada me impede de batizá-lo com o nome que eu quiser: Cantinho dos Alinhavamentos, onde você dá ponto sem nó na sua criatividade! Ou melhor: aqui, toda casa encontra o seu botão! KKK!

A gente não saca nada de corte e costura, mas se diverte.

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Conheça o Blog Pisciana de Juba, da escritora Luciana Assunção: https://lulupisces.blogspot.com/

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