Tijolo virando pó?
Arruda faz jogo bruto pelo Palácio do Buriti
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Outubro se aproxima e, como de costume, a política de Brasília começa a trocar os ternos claros pelos coletes à prova de traição. Nos bastidores do Lago Sul, o ex-governador José Roberto Arruda ensaia um retorno audacioso ao Palácio do Buriti, de onde saiu sob o peso da operação Caixa de Pandora. Para quem finge sofrer de Alzheimer, trata-se de um dos capítulos mais rumorosos da história recente da capital.
Rifado pelo antigo aliado e empresário Paulo Octávio, presidente regional do PSD, Arruda parece ter escolhido avançar pelo caminho mais arriscado. Em seu escritório político na área mais nobre da cidade, multiplicam-se reuniões reservadas, consultas discretas e telefonemas estratégicos. A meta é montar uma chapa majoritária capaz de virar o tabuleiro antes mesmo da largada oficial.
A chapa desenhada mistura sonho e ousadia. Para a vice-governadoria, Arruda insiste no nome da deputada distrital Paula Belmonte (PSDB), perfil identificado com pautas de centro e direita, buscando ampliar a base além do núcleo mais fiel ao ex-governador.
Para o Senado, a composição pretendida é ainda mais simbólica e politicamente carregada, uma vez que envolve a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis, ambas filiadas ao PL de Valdemar Costa Neto. A leitura do grupo é que uma dobradinha ao Senado com forte apelo ao eleitorado conservador e feminino poderia impulsionar a candidatura ao Buriti.
Trata-se de uma engenharia política ambiciosa. Quem vê de fora, considera difícil unir a memória administrativa de Arruda, o discurso técnico de Paula Belmonte e o capital eleitoral bolsonarista representado por Michele e Bia Kicis. Porém, nos cálculos do entorno arrudista, a soma poderia resultar numa chapa “imbatível”.
Mas, na política brasiliense, toda equação tem variável oculta. Sempre há uma pedra no caminho. E a de Arruda atende pelo nome de Paulo Octávio.
O presidente regional do PSD não demonstra disposição em ceder a legenda à candidatura ao governo. O sinal emitido ao ex-aliado é direto, oferecendo como alternativa disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. O recado tem endereço e motivo. Paulo Octávio mantém compromissos firmados com MDB e PP locais. São alianças que, na avaliação de PO, não devem ser rompidas em nome de um projeto personalista.
A ruptura entre os dois simboliza mais do que uma divergência eleitoral. Representa o choque entre dois estilos, definidos, de um lado, pelo pragmatismo empresarial de manutenção de acordos e, de outro, a aposta no retorno político com alto risco e potencial de alto impacto.
Há ainda um fator impossível de ignorar. É o peso da história, porque o eleitor tem memória. A lembrança da operação Caixa de Pandora continua viva no imaginário de parte do eleitorado. Ao mesmo tempo, como contrapeso, há quem recorde a fase de obras e investimentos da gestão Arruda. A disputa será, inevitavelmente, também narrativa.
Brasília, acostumada a ser palco das grandes decisões nacionais, agora observa seu próprio drama local. O Buriti volta ao centro do jogo, com personagens conhecidos, alianças improváveis e velhos acordos tensionados.
Se Arruda conseguirá transformar reuniões discretas em palanque robusto, ou se ficará isolado na travessia partidária, é a incógnita que paira sobre a capital. Pelo visto, outubro promete não apenas votos, mas um teste de memória, lealdade e cálculo político na terra onde o poder sempre se move alguns passos antes de se mostrar.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
