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O misógino

Arruda, inelegível, precisa aceitar a verdade que dói menos

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

Há personagens na política que não envelhecem. São os que apenas repetem a si mesmos com menos pudor e mais ruído. José Roberto Arruda é um exemplo. Parece decidido a ocupar esse papel com uma disciplina quase didática de quem transforma fragilidade jurídica em teoria conspiratória, e chama isso de estratégia. Inelegível e falso, ele alardeia uma inverdade como quem tenta depositar na urna eleitoral, como voto válido, uma nota de três reais.

Notibras permite-se perguntar aos seus leitores o que leva um ex-governador, com um histórico que dispensa rodapés, insinuar que veículos de comunicação estariam a soldo do Palácio do Buriti para demolir uma candidatura que, por ora, mal consegue sustentar-se de pé. A resposta talvez esteja menos no campo dos fatos e mais no terreno da conveniência, justamente de quem precisa deslocar o foco da própria biografia.

Arruda, em declaração cuidadosamente dirigida — não ao público, mas a um interlocutor escolhido a dedo —, resolveu flertar com a tese de que “se paga para dizer que ele está inelegível”. É uma frase que não resiste a um mínimo sopro de realidade. Porque, goste-se ou não, a inelegibilidade não é opinião, nem manchete comprada. É, ao pé da lei, uma condição jurídica. E no caso dele, vigente ao menos até 9 de julho, quando sua situação depende do crivo da ministra Cármen Lúcia, no Supremo Tribunal Federal.

O ex-governador anda desesperado, a ponto de praticar misoginia. Tudo porque concorrentes à frente dele são mulheres. E, vira e mexe, recorre a uma frase machista, como afirmar ‘aceitem (a candidatura dele) que dói menos’. Cria, assim, em torno dele, um rolo de fumaça cada vez mais denso.

Ao tentar nivelar veículos de comunicação sob a suspeita genérica de “patrocínio oficial” com viés editorial, Arruda não acusa, mas insinua. E quem insinua sem prova não denuncia, pois busca apenas contaminar o debate. É o velho expediente de quem não pode contestar o conteúdo e passa a atacar o mensageiro.

Mas há algo ainda mais inquietante nessa equação. Arruda tenta reescrever a própria história em tempo real, como se o passado pudesse ser tratado como narrativa opcional. Para ele, seria conveniente que episódios envolvendo dinheiro vivo, denúncias, cassações, prisão e vexames institucionais fossem apenas versões disputáveis. O que o ex-governador precisa entender é que são fatos documentados, conhecidos, julgados e, sobretudo, lembrados.

Arruda não pode ser mais realista do que o rei, mesmo que insista em interpretar o papel com uma convicção quase teatral. Suas declarações não apenas carecem de consistência; revelam uma negligência política que beira o temerário. Ao lançar suspeitas vagas contra toda a imprensa que não lhe é conveniente, ele amplia o desgaste que diz combater.

No fim das contas, sobra a metáfora inevitável. Suas acusações – e não apenas Notibras sabe disso – têm a mesma resistência do asfalto que um dia se denunciou ter sido produzido por laranjas para pavimentar a capital. Um material aparentemente sólido à distância, mas incapaz de suportar o peso da verdade quando submetido à realidade. E como toda obra mal feita, racha. Sempre racha.

A frase é vulgar, mas, em se tratando do ex-governador, tomamos emprestado um bumerangue. Aceita a inelegibilidade, Arruda, que dói menos. Talvez, apenas talvez, no dia 9 de julho, o Senhor possa recorrer a um lubrificante, preferencialmente aromático, para aliviar a dor. Sexólogos ouvidos por Notibras asseguram que ajuda. E muito.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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