REZA FORTE
AS BENZEDEIRAS E A PORTA LIVRE
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Na cidade do interior, um pequeno grupo humano descia o morro, próximo à linha do trem, por uma viela estreita e torta. Acabavam de vir da casa de dona Cecília, a benzedeira mais afamada da cidade. Assim como Cecília, houvera outras: Glória, Francisca, Bernardete, Paula… Todas, a seu modo, ofereciam o mesmo serviço, prestado sempre de forma gratuita. Uma reza usando falas praticamente incompreensíveis, um gestual. Um pequeno maço de velas era, eventualmente, a paga. Seriam acendidas para o anjo da guarda. Perdia-se na noite dos tempos a origem daquele saber. Certo é que aquelas mulheres haviam aprendido o ritual com outras mulheres, mais velhas de suas famílias, e essas com outras, mais remotas ainda, até um tempo em que o sacerdócio talvez fosse exercido não pelos homens, mas por elas. Um sacerdócio doméstico, privado, destinado a proteger e salvar especialmente aos mais novos. Sim, apenas as crianças eram benzidas, ou rezadas, daquela forma. Aos adultos era reservado diverso tratamento, mais complexo.
De dona Cecília eu, particularmente, me lembro. Era uma senhorinha pequena, de pele parda, cabelos grisalhos, um rosto simpático. Sorria ao nos receber. Punha-nos de costas para a porta de sua modestíssima casa e, movimentando as mãos em volta de nós, nossa cabeça, nossos braços, ia recitando a reza incompreensível, invariavelmente repetida, trecho a trecho, por todas as vezes em que lá estive. Não lembro da fórmula, exceto pela frase que sempre considerei enigmática: “com dois te puseram, com três eu tiro”. O três era a já bem conhecida Santíssima Trindade, que eu havia ouvido o padre falar a respeito na missa. Mas os outros dois, aqueles responsáveis por alguma coisa ruim que nos atrapalhava, eu não podia imaginar quem fossem. Até pensei pouco sobre o que, ou quem, poderiam ser os dois… a ideia me atemorizava, portanto o melhor a fazer era ficar distante e a salvo dessa dupla.
Ninguém podia ficar entre quem estava sendo rezado e a porta logo atrás. As forças, ou energias, que saíam com a reza precisavam encontrar a saída, sem obstáculos.
Certa vez, ouvi dona Cecília balbuciando, após rezar uma menina:
— Ela tava carregada. Óia, fiquei toda arrupiada.
A recomendação final era, após o banho, diluir um tanto de alfazema em extrato numa quantidade de água, ir despejando no corpo pescoço a baixo, recitando o “Creio em Deus Pai”.
— Veio uma menina do Rio, mas eu só quis ver depois que já tinha passado pelo médico — ouvi-a contar noutra ocasião. Era a objetividade da benzedeira se rendendo aos poderes, ou limitações, da medicina tradicional. A seu modo, dona Cecília dizia que não desafiava a ciência. Ao contrário, punha-a em situação superior, e agia a partir do limite em que os “casacas brancas” ficassem sem saída.
Meu tio Hely contava que, um dia, cumpria seu expediente no Hospital do Andaraí quando, movendo-se de mau jeito, travou a coluna. De uma tal maneira que não conseguia sair do lugar. Estava num hospital, mas seus companheiros o levaram, rapidamente, a uma senhora ali perto, que benzia e curava males hunanos. Adentrou meu tio, com dificuldade e se contorcendo de dores, numa saleta miserável de casa prestes a ser demolida por obras que, então, começavam a modificar o lugar. No local, uma mulher pequena, muito idosa, abancada em frente a uma mesa coberta por pano branco, balbuciava uma reza. Alguém da casa pegou uma bacia com água e colocou-a sobre a mesa. Vieram com uma garrafa de vidro e emborcaram-na de gargalo para baixo sobre a bacia. Então, ela começou sua recitação ancestral. À medida em que rezava, a água da bacia subia incrivelmente garrafa a cima. Quando terminou, o líquido estava todo na garrafa, e a dor na coluna de meu tio havia sumido.
Onde estão, nos dias de hoje, essas mulheres e o sacerdócio misterioso que exerciam? Foram engolidas pelo mundo moderno, pelas exigências do mercado de trabalho e a escala 6 x 1? Não aprenderam mais, das gerações passadas, as palavras rituais que curavam nossos males? Onde estão as Cecílias, as Glórias, as Franciscas, as Bernardetes e Paulas no momento em que a humanidade, perdida e egoísta, mais precisa delas, da vela para o anjo da guarda e do banho de alfazema?
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Daniel Marchi é autor de “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.