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Vozes da Literatura

As bússolas sociais e existenciais na escrita de Emanuelle Nascimento

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A coluna Vozes da Literatura recebe hoje a escritora e cientista social Emanuelle Nascimento, uma voz que rejeita a ideia romântica da inspiração mística e enxerga a escrita como um exercício rigoroso de observação, escuta e elaboração intelectual. Fortemente moldada pela leitura crítica de grandes clássicos como Dostoiévski e Clarice Lispector, Emanuelle transpõe para a sua produção literária um repertório robusto e uma atenção radical à experiência e às contradições humanas. Para ela, o domínio das técnicas e das estruturas formais não aprisiona a criatividade, mas atua como a ferramenta essencial que diferencia o desabafo espontâneo da literatura profissional e consciente.

Nesta entrevista exclusiva, a autora mergulha nas intersecções profundas que conectam a ficção, o jornalismo e as Ciências Sociais, revelando como pensadores do calibre de Michel Foucault, Karl Marx e Lélia Gonzalez servem de bússola moral e existencial para os conflitos de suas páginas. Ao debater o papel da crônica urbana e da literatura em tempos de pós-verdade, Emanuelle defende a escrita como um refúgio de nuances e complexidades contra o julgamento imediato dos algoritmos e a superficialidade do consumo rápido. Acompanhe uma conversa franca sobre o cansaço moderno, o impacto ambivalente das mídias digitais e a urgência de redes coletivas de apoio para democratizar o mercado editorial brasileiro.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Minha formação como leitora molda diretamente a maneira como observo o mundo. Não acredito em escrita criativa dissociada de repertório. Ler os clássicos me ensinou menos sobre “como escrever bem” e mais sobre como olhar para as contradições humanas sem simplificá-las. Quando leio Dostoiévski, Clarice Lispector, Drummond ou mesmo autores das Ciências Sociais, percebo que toda grande escrita nasce de uma atenção radical à experiência humana.
A leitura crítica também me libertou da ideia romântica de inspiração. Escrever deixou de ser apenas um ato emocional e passou a ser um exercício de observação, escuta e elaboração. Muitas vezes, destravo minha própria escrita justamente quando compreendo que a literatura não exige genialidade constante, mas sensibilidade intelectual diante do cotidiano.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

A filosofia e as Ciências Sociais atravessam profundamente minha escrita. Não consigo pensar conflitos humanos sem pensar também estruturas sociais, poder, desejo, moralidade e pertencimento. Michel Foucault me ensinou a perceber os mecanismos sutis de disciplina sobre os corpos e subjetividades; Karl Marx me ajudou a compreender o peso concreto da vida material sobre os afetos; Max Weber revelou as angústias produzidas pela racionalização do mundo moderno. Mas também sou profundamente atravessada por autores como Lélia Gonzalez, que me faz pensar o Brasil para além das categorias tradicionais, e por Jeanne Favret-Saada, sobretudo pela ideia de ser afetado pelo mundo antes mesmo de conseguir traduzi-lo racionalmente.

“A crônica urbana continua extremamente relevante”

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica urbana continua extremamente relevante justamente porque vivemos uma época de excesso de velocidade e escassez de elaboração. Em meio ao consumo instantâneo de informação, a crônica ainda possui a capacidade de suspender o olhar automático sobre a vida cotidiana. Talvez hoje a cidade tenha mudado, as redes sociais tenham alterado nossa percepção de intimidade e exposição, mas a solidão urbana continua existindo. Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade escreviam sobre um Brasil que ainda buscava compreender suas próprias modernidades. Hoje escrevemos sobre um sujeito fragmentado, ansioso, hiperconectado e emocionalmente exausto.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Sempre enxerguei literatura e jornalismo como espaços muito próximos no Brasil. A própria tradição da crônica nasce desse trânsito entre observação factual e elaboração estética. Tento equilibrar isso entendendo que a realidade já possui potência narrativa suficiente. O trabalho do escritor não é necessariamente inventar mundos irreais, mas reorganizar simbolicamente experiências humanas reconhecíveis.
A ficção me permite acessar aquilo que a objetividade jornalística não alcança completamente: silêncios, subjetividades, contradições íntimas e zonas ambíguas do comportamento humano.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Em tempos de pós-verdade, acredito que a literatura se torna ainda mais importante porque ela preserva complexidades. Narrativas extremistas e superficiais costumam simplificar a experiência humana; a literatura faz o oposto. Ela devolve nuance.

Escrever hoje é também resistir à lógica do algoritmo, que exige velocidade, simplificação e respostas definitivas. A literatura continua sendo um espaço onde a contradição humana pode existir sem necessidade imediata de julgamento.

“A espontaneidade sem elaboração pode produzir desabafo”

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Conhecer técnica não aprisiona a criatividade; pelo contrário, amplia possibilidades. Estrutura, ritmo, construção narrativa e domínio de linguagem oferecem ferramentas para que o autor consiga sustentar aquilo que deseja dizer.

A diferença entre um escritor amador e um profissional, muitas vezes, não está apenas no talento, mas na consciência formal sobre o próprio texto. A espontaneidade sem elaboração pode produzir desabafo; literatura exige construção.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?
Meu lugar de fala na literatura passa inevitavelmente pelas Ciências Sociais, pela experiência urbana contemporânea e pela observação das fragilidades humanas. Escrevo muito sobre pessoas cansadas, afetadas, atravessadas pela vida cotidiana, pelas relações, pelas desigualdades e pela sensação constante de inadequação moderna. Talvez por isso muitos leitores se identifiquem emocionalmente: porque percebem personagens e narradores profundamente humanos, imperfeitos e contraditórios.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Concordo muito com essa visão. O mercado editorial brasileiro ainda é extremamente concentrado e muitas vezes elitizado. Redes de apoio entre escritores, jornalistas culturais, leitores e coletivos literários são fundamentais para democratizar circulação e permanência.
A literatura não cresce apenas pela genialidade individual, mas também pela construção coletiva de espaços de escuta, publicação e reconhecimento.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Embora escrever seja um ato profundamente solitário, a troca com outros escritores é essencial para amadurecimento estético e intelectual. Oficinas e grupos ajudam o autor a perceber excessos, vícios narrativos, pontos cegos e potencialidades que sozinho talvez não enxergasse.
Além disso, há algo politicamente importante nesses espaços: eles rompem a ideia do escritor isolado como figura quase mítica e aproximam a literatura da experiência coletiva.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

A democratização da escrita pela internet é um fenômeno ambivalente. Por um lado, amplia vozes historicamente silenciadas e descentraliza o acesso à publicação. Por outro, a lógica das redes muitas vezes privilegia velocidade, impacto imediato e estética de consumo rápido. Ainda assim, acredito que estamos produzindo uma geração extremamente interessante justamente porque ela escreve atravessada por múltiplas linguagens, crises sociais, afetivas e tecnológicas.

“Nenhum texto nasce completamente fora do tempo histórico”

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Acho que a escrita é simultaneamente espelho e fuga. Muitas vezes escrevemos para compreender aquilo que ainda não conseguimos elaborar plenamente dentro de nós. A literatura funciona como espaço de reorganização subjetiva. Mas ela também é debate público. Nenhum texto nasce completamente fora do tempo histórico. Mesmo quando escrevemos sobre intimidade, estamos falando sobre cultura, poder, desigualdade, gênero, afetos e sociedade.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Minha atuação acadêmica e minha formação em Ciências Sociais alimentam diretamente minha escrita. Observar pessoas, discursos, comportamentos e relações sociais faz parte não apenas da pesquisa, mas também da literatura. Talvez por isso minhas crônicas frequentemente misturem melancolia urbana, humor crítico, análise social e observação cotidiana. Tenho muito interesse pelas pequenas tragédias silenciosas da vida comum.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

O maior desafio das redes sociais talvez seja não permitir que as métricas substituam o próprio processo criativo. Vivemos uma época em que o escritor precisa performar presença constante, transformar intimidade em conteúdo e medir valor por engajamento. Tento construir uma presença digital mais humana e menos performática, entendendo que leitores se conectam muito mais com autenticidade do que com personagens artificiais de internet.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Espaços independentes de publicação são fundamentais para a renovação da literatura brasileira contemporânea. Muitos autores extremamente talentosos jamais chegariam às grandes editoras sem esses canais alternativos. Portais culturais, cafés literários, jornais independentes e coletivos funcionam como espaços de resistência intelectual e democratização estética.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Talvez a principal reflexão que desejo deixar seja esta: ninguém atravessa a vida sem ser profundamente afetado por ela. Vivemos tentando performar controle, estabilidade e sucesso, mas a experiência humana real é muito mais frágil, contraditória e vulnerável. E ainda assim, seguimos. Talvez exista certa beleza nisso.

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