Crimes contra o próprio povo
As classes mais pobres também foram vítimas da Ditadura Militar
Publicado
em
Neste fim de ano eu não viajei. O recesso chegou e, pela primeira vez em muito tempo, escolhi ficar. Permaneci em Brasília para passar o Natal e o Ano-Novo junto da minha família de origem, sem pressa, sem aeroporto, sem malas. Usei esse tempo livre para coisas simples e, justamente por isso, preciosas: fui ao zoológico, dei voltas no shopping sem objetivo algum, visitei aquela tia que a gente ama, mas só consegue ver uma vez por ano.
E, como acontece quando a rotina desacelera, também sobrou espaço para pesquisar, ler e pensar. Em uma dessas buscas despretensiosas na internet, acabei mergulhando nos arquivos do DOPS, a Delegacia de Ordem Política e Social, do estado onde cresci, o Maranhão. Descobri documentos, relatos e informações que ajudam a compreender melhor o passado. Nada de surpreendente para quem conhece minimamente a história do Brasil, mas ainda assim impactante: a Ditadura Militar perseguiu muitas pessoas. Não apenas figuras públicas ou lideranças políticas, mas gente simples: vaqueiros, lavradores, estudantes e, junto com eles, suas famílias inteiras.
Talvez por isso tenha me causado tanta estranheza, e também indignação, ler uma publicação feita na rede social X pelo jornalista André Shalders, do Metrópoles. Entre outros disparates, ele afirmou que “ter histórias de repressão durante a ditadura é chique”, e que tratar desse tema “não tem nada a ver com os anseios da classe trabalhadora de verdade”.
É uma fala desrespeitosa e profundamente desonesta. Dói ainda mais porque vem de um jornalista, alguém que, ao menos em tese, deveria ter compromisso com a informação de qualidade, com a seriedade histórica e com o respeito às vítimas. Reduzir a violência do Estado, a prisão arbitrária, a tortura e o medo cotidiano a uma espécie de modismo elitizado não é apenas ignorância: é crueldade.
Falar sobre a ditadura não é “chique”. É necessário. É uma forma de honrar quem sofreu, de dar nome às injustiças e de evitar que a história se repita. E isso tem tudo a ver, sim, com os anseios da classe trabalhadora, afinal, foram trabalhadores comuns alguns dos principais alvos da repressão.
Talvez a fala de André diga mais sobre ele do que sobre o tema. Talvez seja apenas inveja de Wagner Moura, que acaba de conquistar um Globo de Ouro por sua atuação em um filme que trata exatamente da Ditadura Militar. Um reconhecimento internacional que mostra que esse assunto não é passado, nem irrelevante, nem “chique”. É memória, é dor, é história viva.
No meu recesso tranquilo, entre visitas familiares e passeios simples, ficou ainda mais claro para mim: lembrar é um ato político. E respeitar essa memória deveria ser, no mínimo, um dever ético de quem informa.