Curta nossa página


A casa da minha tia-avó

As férias mais que normais de nossa familia

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Não parece, mas a serra faz um calor dos infernos no verão. Igualzinho aqui no asfalto.

A casa da minha tia-avó era maior que coração de mãe. Cabia a família inteira, os convidados e os convidados dos convidados.

Num calor daqueles, alguém teve a brilhante ideia de irmos a uma cachoeira que ficava a poucos quilômetros dali. Mas, para chegar até ela, precisávamos sair da entrada da cidade.

Três habilitados, dois carros.

Já te contaram que um Uno aguenta tudo? Pois bem… seguimos viagem com os dois carros lotados. Um só com os adultos e o outro só com as “crianças”.

No meio do caminho, o Santana — um carrão enorme — começou a exalar um cheiro de queimado. Logo depois veio uma fumaça estranha.

Chegamos à cachoeira e, assim que descemos, a motorista percebeu que o grandão estava sem freio.

Foi um breve tormento para “estacionar”, pois havia um pequeno trecho plano antes de uma ribanceira. Corre aqui, busca ali e, logo, conseguimos algumas pedras para segurar o grandão.

Mas, já que estávamos ali, o lema era um só: aproveitar o dia. A manhã passou tranquila. A tarde também.

Quando os mosquitos começaram a aparecer em peso, entendemos o recado: era hora de voltar. Arrumamos tudo e, sabendo que o Santana, além de morrer à toa, estava sem freio, a Lê avisou:

— Cacá, você vai com a Nina e as crianças no meu carro. E isso tinha uma explicação.

Cacá era habilitada, mas praticamente não dirigia. Nina não era habilitada… mas dirigia.

Então, em qualquer eventualidade, quem assumiria o volante seria justamente quem não podia. Faz sentido? Nenhum.

Mas foi assim mesmo.

Os adultos seguiram comigo no grandão. O primeiro trecho foi tranquilo.

Depois veio uma escuridão daquelas.

Foi quando a Melissa, que estava dirigindo o Santana, simplesmente colocou os óculos escuros ao entrar na estrada principal. Ninguém entendeu absolutamente nada.

Depois de todo o sufoco que já estávamos passando para voltar para casa, aquilo foi a cereja do bolo.

Seguimos em silêncio, apreensivos, pois sabíamos que havia uma blitz na entrada da cidade. O Uno passou tranquilamente.

Já nós, no carro dos adultos… Fomos parados.

O policial pediu os documentos do carro e a habilitação da condutora. Em seguida, solicitou que ela descesse do veículo.

Nós também.

Olhou para Melissa e perguntou, sem acreditar:

— A senhora dirige à noite de óculos escuros?

Ela respondeu com toda a naturalidade do mundo:

— Sim… às vezes.

O policial franziu a testa.

— E por quê?

— Normalmente, quando pego estrada. É para o farol não bater direto nos meus olhos. Assim incomoda menos. Ele ficou alguns segundos olhando para ela e fez a pergunta inevitável:

— Mas… como a senhora consegue enxergar?

Melissa respondeu, como se estivesse explicando a coisa mais óbvia do mundo:

— Ah… eu vou me guiando pelas linhas da pista. O policial respirou fundo.

Olhou para a gente e perguntou:

— Tem alguém habilitado aí?

Lê levantou a mão.

Sem dizer mais nada, o guarda entregou os documentos a ela e disse:

— Então assuma o volante… e dirija com segurança. Entramos no carro tentando segurar o riso.

E, por um verdadeiro milagre — ou pela proteção divina dos imprudentes daquela época — chegamos todos bem em casa.

Hoje, quando lembro dessa história, só consigo pensar em duas coisas: como sobrevivemos… e como nossas férias nunca foram normais.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.