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Envelhecer

As graças da velhice

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Gosto muito da velhice, e quem me acompanha teve o prazer de ver a beleza de envelhecer através dos meus olhos, em minhas escritas.

Gosto de ouvi-los, suas histórias quase sempre são repletas de aprendizado.

O corpo fica debilitado, enrugado, cansado e nem sempre acompanha a mente jovem de grande parte deles.

O corpo envelheceu, mas a mente carrega uma criança ou jovem cheio de vida.

A maioria deles anseia pela vida, já não tem tempo a perder com bobagens.

Assim como qualquer pessoa, meus pais têm uma longa história, muitas situações difíceis, histórias belas, mas, na sua grande maioria, a vida
foi bem complicada e, apesar de tudo, considero positivo o saldo total.

Tiveram seis filhos, uma família grande cheia de história para contar.

Entre eles ficou a amizade e cuidado, a casa cheia nos feriados, as rodas de conversa nos domingos e, claro, de vez enquanto, uma história engraçada.

Eles mudaram um pouco, cada um do seu jeito, estão mais teimosos, meio ranzinza, esquecidos, mais assustados ou excessivamente preocupados, mas acredito que é natural.

Como filhos, nós tentamos ajudar no que podemos, mas na maioria das vezes só resta deixar a vida seguir seu ritmo.

É uma loucura atrás da outra, algumas nos deixa preocupados, outras terminam em risadas e fofocas entre os filhos.

Por uma questão de saúde, precisei passar quinze dias na casa deles, recebendo atenção e cuidado.

Hoje de manhã, eu escrevia em meu notebook sentada no sofá, meu pai parou ao meu lado pensativo e me perguntou?

— Hoje é dia quinze?

— Não, pai, quinze é domingo.

— Verdade, segunda é meu aniversário.

Minha mãe responde do quarto.

— Você está doido, seu aniversário é terça-feira.

Meu pai tem um longo histórico, então, atualmente ele se esforça para ser mais ponderado.

Pensei:

Ele sabe exatamente o dia do aniversário dele.

— Não, mãe, é segunda. Falei enquanto meu pai timidamente insistia, tentando ajudar.

— Não, minha velha, meu aniversário é segunda-feira. Ele insiste meio tímido.

Os dois seguem teimando pelo corredor da casa em direção à cozinha onde fica o calendário.

— Não é, eu acabei de olhar na folhinha.

— Essa folhinha deve ser velha.

— Velho somos nós dois, Zé. Responde minha mãe muito brava.

Não aguentei, caí na gargalhada.

Ela me ouve, ri e desaparece escada acima.

Não sei bem como terminou a discussão, mas, conhecendo ela, com certeza olhou o calendário e, sem admitir o equívoco, subiu para o terraço.

……………………………….

“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES.

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