Curta nossa página


Dona Maria José

As mãos que Deus esqueceu de recolher

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

No interior ainda há ruas que o asfalto não ousou pisar. São de terra vermelha, poeira que sobe como incenso quando passa um carro. Nessas ruas, à tardinha, o cheiro é de lenha queimando, café torrado no fundo do quintal e um perfume mais antigo, de arruda, alecrim e guiné, que vem das casas de porta aberta onde moram elas: as benzedeiras e as parteiras, últimas sacerdotisas de um tempo que a medicina moderna acha que matou, mas só adormeceu.

Dona Maria José tem oitenta e sete anos e as costas tortas de tanto abaixar para pegar criança no chão de barro. Quando chega numa casa onde a mulher está de cócoras, gemendo, ela não pergunta se já chamou o médico. Entra calada, acende uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto, enrola o terço no pulso esquerdo e põe a chaleira no fogo. A água quente é para o umbigo do recém-nascido, para o chá de erva-cidreira da mãe, para lavar as mãos que vão fazer o milagre sem luva, sem anestesia, só com fé e sabedoria de séculos.

As mãos dela são mapas. Cada ruga é um rio por onde já passou um parto difícil, um quebranto, uma dor de amor que ninguém explica. Quando ela benze, a voz sai rouca, quase canto:

“Quebrante, mau-olhado, inveja alheia,
vai-te embora pra onde o galo não canta
e a galinha não bota.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
eu te tiro e te mando pra onda do mar.”

A criança que chora de cólica para no mesmo instante em que Dona Maria José sopra três vezes na moleira. Ninguém sabe explicar. Nem ela. Só diz: “Deus sopra por minha boca.”

Já Dona Lurdes, parteira de olhos verdes que ninguém sabe de onde vieram, pega criança com a mesma calma com que pega manga no pé. “Respira junto com a mãe, conta até dez em voz baixa, como quem reza o terço da vida. Quando a cabeça coroando aparece, ela sorri:

“Olha ela aí, já querendo ver o mundo, teimosa que nem a mãe.”

E o choro do bebê rompe a noite como sino novo. A placenta vai pro fundo do quintal, enterrada com uma muda de árvore frutíflia. “Pra criança nunca passar fome”, explica. Ninguém discute.

Elas não cobram. Aceitam o que a família pode dar: um litro de leite, uma dúzia de ovos, um bolo de fubá embrulhado em pano de prato. Dinheiro, só se insistirem muito, e mesmo assim guardam num vidro de nescau para comprar linha de costura ou vela para o altar. Riqueza delas é outra: é o nome gritado na madrugada adentro, é a porta batida às três da manhã, é o “Graças a Deus e à senhora” que acompanha a gente a vida inteira.

Hoje falam que elas são coisa do passado. Que a ciência chegou. Mas quando o hospital fica a sessenta quilômetros de estrada ruim, quando o SUS marca cesariana pra daqui a três meses, quando o bebê resolve nascer de cócoras no meio da cozinha, quem aparece é ela, de chinelo de dedo e terço no bolso, com a bolsa de pano cheia de ervas e coragem.

Eu vi Dona Maria José, já quase cega, benzendo uma moça que médicos tinham desenganado. Três dias depois a moça andava pelo terreiro carregando o filho nos braços. Ninguém gravou, ninguém explicou. Só ficou o cheiro de arruda no ar e uma certeza quieta: tem coisa que o diploma não alcança.

Elas estão indo embora, uma a uma. Enterram-nas com ramos de manjericão no caixão, porque “o cheiro sobe logo pro céu”. E a gente fica aqui, órfão de mãos que sabiam fazer o que a técnica esqueceu: trazer vida e tirar dor com o mesmo gesto antigo.

Quando a última parteira fechar os olhos, o mundo vai ficar mais pobre de milagres pequenos. Mas enquanto houver uma avó que guarde no baú a oração da avó dela, enquanto houver uma mulher que, na hora do aperto, murmure “Nossa Senhora do Bom Parto, valei-me”, elas não morrem de todo.

Continuam vivendo nas nossas veias, no nosso medo, na nossa esperança.

E, nas noites de lua cheia, quando o vento traz cheiro de alecrim do nada, a gente sabe: é ela passando, de leve, benzendo a gente sem a gente pedir.

Porque mão de benzedeira e parteira é assim:

Deus esqueceu de recolher quando subiu pro céu.

Deixou aqui, pra cuidar da gente.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.