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Um novo recomeço

As quartas-feiras sem chope

Publicado

Autor/Imagem:
Fabiana Saka / Francisco Filippino

Em que momento me perdi?

Um chato, amargurado, pesado, sem causa aparente. Foi nisso que me transformei.

Fiz 38 anos. Sou bem-sucedido, tenho a vida que escolhi e, diante de tudo o que fiz para chegar aonde estou, acredito ter adquirido alguma maturidade. Sei que não existe almoço grátis e que a vida bacana que estou construindo é fruto de muito esforço.

Apesar disso, sinto que estou perdendo a minha alegria.

Aquele jovem feliz, ambicioso e cheio de tesão pela vida, que sentia possuir todo o tempo do mundo e acreditava que todos os tesouros estariam ao alcance de suas mãos, tornou-se um rabugento. Um escroto que reclama da visita que chegará no final de semana porque não poderá descansar.

Antes, eu gostava de fazer caminhadas, ir ao cinema com minha esposa ou, às vezes, até sozinho, quando queria assistir a algum filme pouco conhecido. Eram alegrias simples que não faltavam em minha vida.

Agora, até pensar no que vou descongelar para a refeição do dia seguinte me pesa.

Tudo me sobrecarrega.

Minha esposa chega do trabalho querendo conversar sobre seu dia, mas eu entro no piloto automático. Escuto as primeiras palavras, balanço a cabeça e, depois de algum tempo, já não sei mais o que ela está dizendo.

Certa noite, Luísa entrou em casa aborrecida. Deixou a bolsa sobre uma cadeira e sentou-se ao meu lado no sofá.

— Hoje foi um dia péssimo — disse.

— O que aconteceu?

Ela começou a falar sobre uma colega, uma reunião e uma discussão que tivera com a chefe. Enquanto isso, eu olhava para a televisão, embora nem soubesse o que estava passando.

— Você acha que eu fiz errado? — perguntou.

— Não. Acho que você fez certo.

Luísa ficou me olhando.

— O que eu fiz certo?

Não consegui responder.

— Você não ouviu nada do que eu falei, não é?

— Ouvi, sim.

— Então me diga o que aconteceu.

Fiquei em silêncio.

— Você sempre faz isso agora — disse ela. — Parece que está presente, mas não está.

No dia seguinte, eu mesmo lhe cobrei uma situação sobre a qual já havíamos conversado.

— Eu expliquei tudo ontem — respondeu.

— Não lembro.

— Eu sei que não lembra. Você não estava me ouvindo.

Essas coisas começaram a nos trazer problemas. Eu ficava irritado porque não compreendia algumas decisões que ela tomava, e Luísa se cansava de repetir conversas inteiras que eu simplesmente não havia escutado.

Não estava me aguentando.

Ficava envergonhado da situação, pois parecia um moleque mimado. Vida boa, tudo em dia, esposa maravilhosa, bom emprego, família com saúde, e eu ali, parecendo um burguês reclamando de barriga cheia.

Num sábado de manhã, Luísa entrou no quarto já vestida.

— Vamos tomar um café da manhã fora? Depois podemos dar uma volta.

Olhei para o relógio.

— Hoje?

— Sim. Descobri uma padaria nova. Parece ótima.

— Mas temos um monte de coisas para fazer à tarde.

— Voltamos cedo.

— Vai ficar tudo para o final de semana. Eu queria descansar.

Ela permaneceu parada perto da porta por alguns segundos.

— Tudo bem.

— Não fica chateada.

— Não estou chateada.

Estava.

Luísa não insistiu. Nas semanas seguintes, parou de fazer convites. Quando percebi, já não me chamava para caminhar, tomar café ou ir ao cinema.

Eu estava fazendo minha esposa viver uma vida de idosa. Estava trazendo Luísa para dentro do meu buraco.

Minha esposa estava perdendo a fé em mim, e não era para menos. Ninguém quer estar ao lado de alguém pesado, que só reclama, recusa todos os convites e parece permanentemente incomodado.

Antes, eu não me sentia daquela forma.

Fazendo uma análise rápida, percebi que aquele desânimo sem fim havia começado cerca de um ano antes. Tudo parecia ter perdido a graça e o sabor. Minha exaustão era mais emocional do que física.

Acordava com dificuldade. A insônia havia se tornado constante e, quando o despertador tocava, eu já começava o dia cansado.

O trabalho, que antes me motivava, virou um eterno checklist a ser cumprido. Eu chegava ao escritório, abria os e-mails, respondia às mensagens, participava de reuniões e riscava tarefas. Não havia entusiasmo, apenas obrigação.

Sentia minha alegria se esvair pelos poros.

Meus amigos começaram a notar minha falta de ânimo e a cobrar minha presença. Os chopes das quartas-feiras, que antes eram frequentes, tornaram-se mais uma coisa da qual eu tentava escapar.

Toda quarta-feira, alguém mandava mensagem no grupo:

“Hoje tem?”

Eu inventava uma desculpa.

“Estou cheio de trabalho.”

“Estou com dor de cabeça.”

“Luísa está me esperando.”

Na verdade, eu ia do trabalho direto para casa, sentava no sofá e permanecia ali, sem vontade de conversar, sair ou fazer qualquer coisa.

Foi exatamente numa dessas quartas-feiras sem chope com os amigos que Luísa veio falar comigo.

Ela estava sentada à mesa da sala quando cheguei. Havia duas xícaras de café diante dela.

— Precisamos conversar — disse.

— Agora?

— Agora.

Sentei-me.

Luísa demorou alguns segundos antes de começar.

— Tenho notado há muito tempo que você está isolado e desinteressado por tudo. Você responde em monossílabos. Quando tento conversar, parece que estou incomodando.

— Estou cansado, Luísa.

— Você está sempre cansado.

— Eu trabalho muito.

— Eu também trabalho.

A resposta me irritou.

— Então agora eu não posso mais ficar cansado dentro da minha própria casa?

— Pode. Mas isso não é apenas cansaço.

— E o que é, então?

— Eu não sei. Só sei que você está distante demais. Você não dorme, não encontra seus amigos e não quer fazer nada.

Cruzei os braços.

— Você está exagerando.

— Outro dia, meus pais vieram nos visitar. Você pediu licença e foi jogar no quarto. Fiquei envergonhada. Eles foram embora cedo acreditando que estavam incomodando.

— Eu não estava bem naquele dia.

— Você não está bem em dia nenhum.

Fiquei em silêncio.

— Eu tento conversar com você, mas parece que tudo o que faço irrita. Não sei mais se o problema é comigo, com o nosso casamento ou com a vida que construímos.

Olhei para ela.

Havia nos olhos de minha mulher uma dúvida que eu nunca havia percebido. Luísa já não sabia se eu ainda a amava. Talvez nem soubesse se eu queria continuar ao lado dela.

— Você ainda me ama? — perguntou.

— Claro que amo.

— Então me diga o que está acontecendo.

A princípio, hesitei. Entrei na defensiva. Disse que era uma fase, que precisava descansar e que todos passavam por períodos difíceis.

Enquanto falava, percebi que nem eu acreditava mais naquelas desculpas.

Dei um suspiro de coragem.

— Eu não sei o que está acontecendo comigo.

Luísa não disse nada.

— Tenho sentido uma pressão enorme no trabalho. Acordo sem vontade de levantar. Coisas que antes me deixavam feliz agora parecem dar trabalho demais. Até as atividades mais simples eu faço empurrado, com má vontade.

Minha voz começou a falhar.

— Quando você me chama para sair, penso no trânsito, no tempo que vamos perder, no que ainda teremos que fazer quando voltarmos. Antes mesmo de sair de casa, já estou querendo voltar.

Ela continuava me escutando atentamente, sem interrupção.

— Eu me sinto consumido. Tudo me esgota. Absolutamente tudo.

— Por que você nunca me contou isso?

— Porque parece ridículo. Eu tenho uma vida boa. Não deveria estar reclamando.

— Ter uma vida boa não impede ninguém de adoecer.

Aquela frase me atingiu.

— Eu não sei o que fazer — confessei.

Luísa segurou minha mão.

— Eu também não sei. Mas acho que precisamos procurar alguém que saiba.

Em nossa longa conversa, decidimos que eu buscaria ajuda. Varrer minhas dificuldades para debaixo do tapete estava me custando caro demais.

Apesar de saber que não estava bem, eu ainda não tinha a dimensão do impacto que minhas atitudes estavam causando em Luísa e em minhas relações pessoais.

Comecei as sessões de terapia com Laura, uma psicóloga que recebi por indicação de uma amiga pessoal.

Na primeira consulta, sentei-me diante dela sem saber por onde começar.

— O que fez você procurar terapia? — perguntou.

— Minha esposa.

— Ela pediu que você viesse?

— Nós conversamos. Ela acha que eu não estou bem.

— E você?

Pensei antes de responder.

— Acho que ela tem razão.

Falei sobre a falta de energia, a insônia, a irritação e a dificuldade de encontrar prazer nas coisas que antes me faziam bem.

— Você se lembra da última vez em que fez alguma coisa simplesmente porque teve vontade? — perguntou Laura.

Tentei encontrar uma resposta.

Pensei nas caminhadas, no cinema, nos chopes com os amigos e nos cafés da manhã com Luísa.

— Não lembro.

Dizer aquilo em voz alta me assustou.

Durante as sessões, foi levantada a possibilidade de um quadro de burnout, que poderia estar evoluindo para uma depressão. Laura sugeriu que eu também procurasse um psiquiatra, explicando que meu caso precisava de uma intervenção multidisciplinar.

— Psiquiatra? — perguntei.

— Para que você seja avaliado adequadamente.

— Você acha que eu preciso de remédio?

— Acho que precisamos compreender o seu quadro e pensar no cuidado mais indicado. A avaliação não obriga você a nada, mas pode ser importante.

É claro que não recebi o encaminhamento com entusiasmo. Parte de mim ainda pensava que aquilo era exagerado. Eu carregava preconceitos sobre terapia, psiquiatria e medicamentos, mesmo sem admitir.

Durante alguns dias, pensei em desistir.

Mas, depois dos últimos acontecimentos, eu já não tinha coragem de dizer que a observação de Laura era precipitada. Também não podia ignorar o sofrimento que minhas atitudes estavam causando às pessoas que eu amava.

Com o tempo, entendi que meu caminho de recuperação não seria tão rápido quanto eu gostaria, mas que eu não precisaria percorrê-lo sozinho.

Eu havia guardado para mim o que poderia ter dividido, desde o início, com alguém de confiança. Deixei os sentimentos ruins, o cansaço e o estresse se acumularem até que tudo se agravasse.

O olhar amoroso e atento de minha esposa me deu força para colocar meus preconceitos de lado e me cuidar. O atendimento humano da psicóloga Laura me fez entender que depressão não é frescura ou falta de algo.

Não é ingratidão por ter uma vida boa. Não é fraqueza, preguiça ou falta de força de vontade.

É uma condição que precisa ser acolhida, compreendida e tratada.

Com o amor de Luísa, as sessões de terapia, o acompanhamento médico e os medicamentos que fossem necessários, eu poderia recuperar meu vigor, minha alegria e minha saúde mental.

Não aconteceu de uma hora para outra.

Ainda havia dias difíceis. Noites em que eu quase não dormia e manhãs em que levantar da cama exigia mais força do que eu acreditava possuir. A diferença era que agora eu conseguia dizer:

— Hoje não estou bem.

Luísa já não precisava adivinhar.

Também comecei a perceber alguns pequenos sinais de mudança. Uma conversa que eu conseguia acompanhar até o fim. Uma noite de sono um pouco melhor. Uma mensagem dos amigos à qual eu respondia sem inventar desculpas.

Num sábado de manhã, acordei antes de Luísa.

Fui até a cozinha, preparei café e permaneci por alguns instantes olhando para as duas xícaras sobre a mesa.

Quando ela entrou, ainda sonolenta, perguntei:

— Quer conhecer aquela padaria nova?

Luísa me olhou, surpresa.

— Hoje?

— Hoje.

— E as coisas que temos para fazer?

— Podem esperar um pouco.

Ela sorriu.

— Podemos caminhar depois — acrescentei. — Mas não prometo ir muito longe.

— O café já está ótimo.

Saímos de casa pouco depois.

Eu ainda não era o homem alegre e cheio de vida que sempre fui. Também não sabia quanto tempo levaria para me sentir completamente bem.

Mas agora havia esperança.

Eu estava fazendo a minha parte, aceitando ajuda e aprendendo a cuidar de mim. Talvez a vida não voltasse a ser exatamente como antes. Talvez eu precisasse construir uma forma nova e mais saudável de vivê-la.

Naquela manhã, caminhei ao lado da mulher que amava.

Não tinha recuperado tudo.

Mas já não estava parado.

Era um novo começo.

…………………
Fabiana Saka (@fabianasaka) é psicóloga clínica e escritora carioca. Formada em Psicologia, com especialização em Terapia Familiar e mediação de conflitos, atua há mais de 14 anos na clínica. É autora de As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo e colaboradora do Café Literário, de Notibras.

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