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Solidão/Solução

As três cadeiras

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Em minha casa eu tinha três cadeiras: uma para a solidão, uma para a amizade e a terceira para a sociedade.”
(Henry David Thoreau, filósofo norte-americano in “Walden”, 1854)

A solidão é ao mesmo tempo um problema e uma solução

Um filósofo sozinho numa cabana no meio da floresta, em que tudo é silêncio? Durante décadas, Henry David Thoreau tem sido o exemplo de uma vida simples e da solidão. Frases como a que abre este artigo (inspirado numa publicação na internet – **Veja o link ao final) sobre as três cadeiras que o pensador americano tinha na sua casa de campo.

De fato, a história não foi exatamente assim: a cabana de Thoreau ficava a menos de trezentos metros da linha férrea, e ele, na verdade, descia até a cidade quase todos os dias e, certa vez, conseguiu acomodar quase trinta pessoas lá dentro.

A frase das três cadeiras nunca foi sobre viver isolado

O texto está em Walden (1854), no capítulo dedicado aos visitantes e é ligeiramente diferente da versão que costuma circular. Resumindo, Thoreau escreve que “há uma cadeira para quando está sozinho, duas para quando um amigo o visita e três para a companhia de outros”.

Parece detalhe, mas não é.

Apesar da frase falar sobre solidão, ela não fala exatamente sobre viver isolado.

A explicação é simples: a citação de Thoreau não se refere à solidão, à autossuficiência ou ao autocontrole, mas sobre equilíbrio.

Quando Thoreau escreveu isso, ele já estava farto de ser rotulado como um “eremita”. Em seu livro, “Eu penso e amo a sociedade tanto quanto qualquer um”, ele demonstra isso. Henry recebeu mais visitantes durante seu retiro na floresta do que em qualquer outro momento de sua vida.

O Experimento de reclusão na cabana/mata

Seu experimento de reclusão (os dois anos, dois meses e dois dias que durou) foi um período de autodescoberta. Nada “sério”, científico para os padrões da época. Era Thoreau brincando de descobrir quem ele queria ser quando crescesse.

E por que tudo isso é importante?

Muitas vezes pensamos que os outros podem nos ajudar porque passaram pelas mesmas coisas que nós, porque escalaram a mesma montanha que nós. Mas isso não é verdade: na realidade, ninguém está escalando essa mesma montanha.

Há alguns anos escrevi – e foi publicado aqui no CL – um pequeno conto “estranho” chamado “Muito Além do Aconcágua”*; de certa forma, o conto é inspirado nessas reflexões sobre “o fato de que ninguém está escalando a mesma montanha” provocadas pelo “eremita”.

Os outros são úteis porque, embora estejam a escalar as suas próprias montanhas, têm uma perspectiva única sobre o que está por vir e sobre o que deixámos para trás.

Estamos vivendo uma epidemia de solidão.

Em novembro de 2023, a OMS declarou a solidão indesejada uma ameaça global à saúde e criou uma comissão sobre o assunto, que publicou seu relatório em 2025, e é aí que Thoreau pode nos ajudar. É preciso entender a “lição” das Três cadeiras. Não é sobre “sente-se na primeira cadeira”.

O “Toque” que Thoureau nos dá é de outra ordem: psicológica e filosófica. É ter as três cadeiras prontas: buscar momentos de “solidão escolhida” é bom, mas a solidão imposta e crônica nos adoece. Nunca se esqueça das três cadeiras desse cara incrível que mudou o rumo de tantas gerações e produziu pensamentos e arte pura: revolucionária.

Então sim, vale a pena lembrar do bom Henry David Thoreau: Vamos contar as cadeiras?!

………………………..

*Leia o conto “Muito Além do Aconcágua”, de Gilberto Motta
https://www.notibras.com/site/muito-alem-do-aconcagua-ha-senhas-dolares-e-um-fundo-infinito/

**Leia reportagem plataforma Terra:
https://www.terra.com.br/byte/uma-das-frases-mais-brilhantes-da-psicologia-em-minha-casa-eu-tinha-tres-cadeiras-uma-para-a-solidao-uma-para-a-amizade-e-a-terceira-para-a-sociedade-disse-o-filosofo-henry-david-thoreau,9827a55d8e214bc861407f89d5d65e5fi52n7elx.html?utm_source=clipboard  

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador sobrevivente dos anos 60, da geração Beat, da contracultura e tudo o mais que teve em Henry D. Thoreau forte e decisiva inspiração. Escreve aqui no Café Literário e em outros sites e plataformas. Livro em produção editorial, “AS MÃOS DE GUEVARA”, novela/ficção. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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