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Mamãe e vovó

As ursas

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Foi em Niterói, na casa onde eu morava com meus pais e avós e minha irmã mais nova.

Eu devia ter 7 ou 8 anos. Não lembro por que aconteceu, provavelmente minha mãe queria me castigar com seus terríveis beliscões e minha avó, que arrastava um bonde por mim, não deixou. E então, diante de meus olhos de criança, as duas se enfrentaram.

Tudo se passou em silêncio, que não iam se expor à curiosidade das vizinhas. Elas pareceram crescer, uma em direção à outra, e se engalfinharam.

Mãe e filha, ficaram ainda mais parecidas durante o confronto. Os olhos de ambas fuzilavam de raiva, o lábio inferior das duas tremia, e as armas – as unhas – cravaram-se nos braços gordos de uma e de outra. Era a primeira vez que eu via adultos brigarem. Pareceram-me feras, não das que se movem sobre quatro patas; antes, duas ursas, que se erguem sobre as patas traseiras e golpeiam com suas garras poderosas.

Quanto a mim, tremia devido a uma mescla de emoções. Havia medo e susto, por estar assistindo a uma briga de gente grande; mas as emoções primordiais eram prazer e excitação. Estavam brigando por mim, eu era importante! Mais que isso, era poderoso, conseguia manipular duas feras, levá-las a lutar por minha causa. Meus olhos brilhavam, tinha vontade de bater palmas, de torcer por minha avó, gostaria que o entrevero não terminasse nunca!

Mas terminou, claro. Não lembro como. Suponho que as duas devem ter percebido o papel ridículo que estavam fazendo, diante dos olhos assustados de um garotinho (felizmente não notaram que eu estava adorando assistir de camarote à batalha das ursas, do contrário ambas teriam me dado beliscões de tirar sangue). Seja como for, as garras foram recolhidas, deixaram os braços das respectivas vítimas, os lábios cessaram de tremer, os olhos pararam de faiscar de furor, as feições perderam sua bestialidade e tudo voltou ao normal.

Uma nuvem de silêncio envolveu esse episódio da vida privada de uma família burguesa. Nem minha avó, nem minha mãe, nem eu, testemunha e provável instigador da porra toda, jamais comentamos o acontecido.

Quer dizer, até agora.

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