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O LADO B DA LITERATURA

ASCENSO FERREIRA, O XERIFE DA POESIA

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto de arquivo

Até hoje não sei se encontrei Ascenso Ferreira no Recife ou se foi ele quem me encontrou num desses quartos escuros da imaginação, onde os mortos bons aparecem para dar conselho aos vivos aflitos.

O fato é que ele me surgiu à beira do Capibaribe. Ou me pareceu surgir. A noite estava mansa, o rio seguia seu destino de água antiga, e eu, estrangeiro de mim mesmo, caminhava pelas bandas do Cais da Alfândega, pensando em poesia, em fracasso, em destino, nessas coisas que a gente só confessa ao silêncio.

Foi então que notei um vulto largo, corpulento, com um chapelão de abas imensas. Havia nele qualquer coisa de delegado sertanejo, artista de feira, fazendeiro sem fazenda, poeta, voz de trovoada e coração atravessado. Quando se aproximou, não tive dúvida. Era Ascenso Ferreira. Ou era o fantasma dele, que talvez dê no mesmo quando se trata de poesia.

“Boa noite, cavalheiro”, arrisquei.

Ele respondeu com voz de Pernambuco inteiro.

Ascenso era desses homens-lenda que pareciam inventados pela própria literatura. Nasceu em Palmares, batizado Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, em 9 de maio de 1895. Cresceu em graça e poesia. Chegou aos quase dois metros de altura, mais de cem quilos de corpo, charuto na boca, chapéu grande, apetite de festa, medo de avião, medo da morte, horror de cartas, amor ao telefone, devoção pela filha e uma vida que, ainda em vida, já ia virando lenda. A imprensa antiga gostava de descrevê-lo como se ele fosse, ao mesmo tempo, poeta, personagem, boêmio e animal fabuloso. E talvez fosse mesmo.

Numa antiga reportagem de Darwin Brandão, publicada em agosto de 1953 na Manchete – que tanto prestigiava a poesia -, ele aparece hospedado num hotel barato da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Para os empregados, não era “o senhor Ascenso”, nem “o escritor”, nem “o doutor”. Era simplesmente “o poeta”. A designação bastava. Como se naquela palavra coubesse o homem inteiro, com sua barriga, sua voz, sua fome, seus sapatos e seus versos.

O porteiro informa que ele saíra para comer mamão numa leiteria. “Mas acho que vai comer uns quatro”, acrescenta, já entregando a dimensão do personagem. Pouco depois, chega Ascenso, com sua estatura, seu volume de carne e mito, queixando-se da pressão alta e dizendo que o melhor remédio era emagrecer. Em seguida, no quarto escuro, tira o chapéu, o paletó, os sapatos e se espicha de gravata na cama pequena demais para ele. Os pés sobram. A barriga sobe. A mão enorme esfrega a cara. E ele fala.

Fala de poesia, de mulheres, de morte, de terra, de dinheiro perdido, de comida, de vinho, de cachimbo, de charuto, de Banco do Brasil, de Getúlio, de Pernambuco, do Rio, do Nordeste, de si mesmo. Fala como quem declama mesmo quando conversa. E talvez seja esse o ponto: em Ascenso, a poesia não era uma atividade separada da vida. Era o modo como a vida fluía pela boca, como o Capibaribe em procura do Atlântico mar.

Ele viera ao Rio, dizia, “matar as saudades dos nordestinos”. A frase é bonita porque inverte a saudade. Não era ele quem vinha matar a própria saudade. Vinha trazer aos outros um pedaço da terra distante. Havia, segundo ele, milhares de nordestinos no Rio. E Ascenso parecia se ver como uma espécie de mensageiro daquela terra: um homem que transportava, na voz, a bagaceira, o sertão, o litoral, a feira, os engenhos que fazem sonhar, os ritmos populares, a fala do povo, a poeira dos caminhos e a graça de Pernambuco.

Mas não aceitava que chamassem aquilo de caipirismo. Reagia. Caipirismo, dizia, era uma língua inexistente. O que fazia era outra coisa: trabalhava com ritmos populares, mas sem abandonar a nobreza da poesia. Essa afirmação é importante. Ascenso não queria ser confundido com um colecionador de fala pitoresca, nem com um poeta folclórico no sentido menor da palavra. Ele não recolhia o povo como quem recolhe curiosidade. Ele vinha de dentro. Conhecia a terra não por estudo, mas por incorporação.

Talvez por isso houvesse nele esse contraste tão forte entre o palhaço e o poeta. A reportagem deixa escapar uma frase dura: os homens preferiam nele o palhaço ao poeta. Aí está uma ferida. O Brasil costuma fazer isso com seus artistas mais solares. Ri deles, aproveita-lhes o exagero, a fala, o tipo físico, a caricatura, a mesa farta, o chapéu, o escândalo, a anedota. Depois, quando sobra tempo, pergunta pela obra.

Ascenso sabia disso. E devia sofrer, embora disfarçasse no riso. Era um homem grande demais para ser apenas engraçado e vivo demais para ser apenas estudado. Tinha graça, sim. Mas a graça, nele, não era ornamento. Era uma forma de inteligência. Uma defesa contra a miséria, contra a burocracia, contra a secura da vida, contra a falta de verba para a poesia.

“Não há verba para poesia.” A frase dele, dita a propósito de uma história envolvendo livros que não foram comprados, ficou como epitáfio administrativo do Brasil. Não há verba para poesia, mas há sempre verba para o esquecimento. Getúlio Vargas mandou adquirir 20 livros seus, em edição especial. Trinta contos de réis. Ele entregou os livros, mas nunca viu o dinheiro. O poeta, quando precisa vender seus livros, gravar seus poemas, fazer conferência, negociar a própria sobrevivência, descobre que o país admira a poesia principalmente depois que ela já não pede nada em troca.

Ascenso pedia. Pedia espaço, gravação, edição popular, contrato, circulação. Queria deixar sua obra gravada porque sabia que seus poemas dependiam muito da voz. E nisso estava certo. Há poetas que se leem melhor em silêncio. Outros precisam ser ouvidos. Ascenso pertencia a essa segunda família. Sua poesia tem corpo sonoro. Pede boca, plateia, respiração, pausa, riso, surpresa. No papel, ela vive. Na voz, ela levanta.

A vida dele parecia igualmente encenada, mas não por falsidade. Por excesso. Jogou roleta, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro, vendeu ferro velho, vendeu sacaria, tentou a vida de fazenda em Canhotinho, plantou algodão e viu a seca passar por cima da esperança. Reclamava do Banco do Brasil que emprestava sem compreender a terra, sem levar em conta a estiagem, sem respeitar o tempo de quem planta. O homem que parecia apenas boêmio sabia muito bem o peso da economia sobre o lombo de quem trabalha.

Também comia. E muito. Trazia farinha de Pernambuco na mala e a abria nos restaurantes do Rio para acompanhar o peixe ou o bacalhau. Fumava charutos enormes desde menino. Gostava de aguardente com mel de abelha e limão. Tinha preferência por galinha, peru assado devagar, comidas de sustância. Nele, tudo parecia contrariar a ideia asséptica de poeta. Ascenso não era vapor. Era matéria. Era suor, farinha, fumaça, gordura, voz, desejo, pressão alta, riso, susto e chão.

E, no entanto, falava da morte.

Queria morrer violentamente, dizia, sem balão de oxigênio, sem pinico e sem aparadeira. Não viajava de avião porque “quem é do chão não se atrepa”. Preferia navio, com o consolo de saber nadar. A frase é de uma beleza visceral. Diz tudo sobre sua ligação com a terra e, ao mesmo tempo, sobre sua recusa da morte domesticada. Ascenso queria morrer como viveu: sem pedir desculpas ao bom comportamento.

Quando apareceu para mim naquela noite do Recife — ou quando imaginei que apareceu —, tive vontade de perguntar muitas coisas. Se ainda valia a pena escrever. Se poeta nasce ou insiste. Se a poesia salva alguma coisa. Se o reconhecimento chega. Se a posteridade paga a conta atrasada dos vivos. Ele me olhou com aquela cara de quem já sabia que as perguntas eram mais vaidosas do que profundas.

Ascenso Ferreira morreu em 5 de maio de 1965, mas não ficou quieto. Esses homens não ficam. Continuam andando de chapéu grande pelas ruas do Recife, do Rio, da memória brasileira. Continuam entrando nos hotéis baratos, nas leiterias, nas conversas de madrugada. Continuam lembrando que a poesia não precisa escolher entre povo e nobreza, entre graça e dor, entre corpo e espírito. Pode ter tudo. Pode vir com farinha na mala e ainda assim ascender com as coisas terrenas para um plano mais alto.

Hoje está dissolvido na água, na rua, no riso de algum passante, no barulho distante da cidade. Está nos navios de vintena da herança de uma tia, que vão para Oropa, França e Bahia, ou num casarão que dá frente para terra e fundos pro mar, de onde se veem os marujos tiruliluli, tirulilulá…

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário, em Notibras, e fundador da Editora Fava, transita entre a literatura, o direito e o ensino. É autor dos livros A Verdade nos Seres (poesia) e Território do Sonho (contos), além de Jardim Secreto (poesia), no prelo. Fez o lado B da Literatura deste domingo a pedido do titular da coluna, Cassiano Condé.

Instagram: @prof.danielmarchi

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