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As lágrimas de Cartago (Epílogo)

Asdrúbal e Cipião, o vento e o leão

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Cipião Emiliano, o novo comandante militar das legiões romanas na África – descendente do glorioso Cipião, o africano – aportou na costa africana com duas novas legiões, somando-se estas às quatro que lá já estavam há seis meses

Após reunir todas as suas forças e ordenar o retorno dos antigos comandantes para Roma, o general supremo nomeado pelo Senado fez uma severa peroração aos oficiais:

—Essa guerra vai ser longa, portanto não alimentem esperanças de voltar para casa tão cedo! Daqui para a frente, quero obediência estrita às novas ordens e instruções de campanha por parte de vocês e de toda a tropa. Qualquer desobediência, insubordinação ou omissão será punida com a morte.

Todos ali já tinham ouvido falar do novo comandante e, chocados, constataram que ele superava a sua fama de implacável disciplinador.

—Não será mais permitido trazer prostitutas para os acampamentos, os deslocamentos serão realizados à noite e orientados pelos novos guias africanos que contratei, haverá inspeção diária quanto ao estado das armas e dos uniformes e a ração diária será fornecida de acordo com desempenho de cada centúria após os combates.

Qualquer outro general que dispusesse tais ordens seria imediatamente boicotado e até destituído, mas dessa vez, tais pensamentos passavam longe da cabeça dos oficiais romanos.

— Faremos um movimento de pinça em duas formações de batalha que avançará dez quilômetros por dia em direção à Cartago, irei cobrar essa meta de cada um de vocês. Para animar a tropa, comuniquem que todo o ouro que for arrecadado depois de chegarmos em Cartago será distribuído entre oficiais e soldados.

Já em Cartago, Asdrúbal, na companhia de Elissa, apresentou-se a Bomilcar.

Encabulado, o general começou a tentar explicar a inusitada situação para o presidente do Conselho dos cento e quatro:

— Pai, ocorreu algo que não estava previsto por ninguém…

Observando Elissa, exuberante, impávida e altiva, bem como a forma como o filho olhava para a moça, o velho e sagaz senador interrompeu Asdrúbal.

— Filho, não precisa continuar, eu já entendi o que houve! Se eu não acreditasse que a nossa aliança com os númidas seria mais uma atrapalhação do que uma ajuda, eu mandaria açoitar vocês dois…espero que você não seja uma nova Helena de Tróia, Elissa. Bem, a sorte está lançada!

— Alguma notícia dos mensageiros que enviamos para requisitar os mercenários, pai?

— Nada ainda, mas sei que eles logo virão, sempre vieram quando precisamos! Uma novidade do lado romano: há um novo comandante das legiões na África, e isso não prenuncia nada de bom para Cartago.

— Quem é ele? questionou, Asdrúbal.

— Cipião Emiliano, um descendente de Cipião, o nosso algoz que derrotou o grande Aníbal há trinta anos.

— Eu o conheci quando estive em Roma na juventude. Ele é obsessivo, determinado ao extremo e muito capacitado, observou, Elissa, demonstrando preocupação..

— Então precisamos redobrar os nossos esforços defensivos até os mercenários chegarem e, então, reunirmos soldados suficientes para organizar uma ofensiva, avaliou, Asdrúbal.

— Ele chegou com mais duas novas legiões, isso significa que você tem que interromper as suas incursões por territórios distantes e concentrar todas as forças em torno da cidade, analisou, Bomilcar.

— Farei isso, pai, disse Asdrúbal, segurando a mão de Elissa e depois conduzindo a amada para os seus novos aposentos.

A notícia do ocorrido na frustrada conferência entre os líderes africanos logo chegou aos ouvidos de Cipião Emiliano.

— É uma boa hora para buscarmos uma aliança com os númidas, disse o general romano a seu imediato.

— Seriam eles aliados confiáveis, senhor? questionou o subordinado.

— Meu caro Cássio, eu conheço a moça envolvida na situação. Acredite, por ela, qualquer númida, cartaginês ou romano perderia a cabeça facilmente! Então, é também natural que alguém que foi privado da companhia dela queira dirigir toda a sua raiva contra o responsável por isso, no caso, o comandante cartaginês.

— Entendo, comandante! Devo enviar um mensageiro ao príncipe númida propondo uma reunião?

— Imediatamente, general!

Não foi preciso muita conversa para a formalização da aliança Roma-Numídia.

Cipião Emiliano, todavia, deixou claro que o comando militar supremo da coligação seria dele, cabendo ao príncipe acatar as suas determinações táticas.

— Após a derrota de Cartago, os númidas receberão as terras que lhes pertencem por direito. Tenho certeza que o Senado romano vai confirmar o nosso acordo, disse o general ao desolado príncipe.

Agora fortalecido pelas forças númidas, o plano estratégico de Cipião Emiliano para sufocar os cartagineses avançava, mesmo com consideráveis perdas de soldados.

Confinado aos territórios próximos a Cartago, Asdrúbal, cada vez mais, recuava as suas forças.

Ainda contando com a chegada de reforços dos mercenários africanos, o comandante cartaginês ordenou a construção de trincheiras e valas com a finalidade de dificultar a progressão das forças inimigas, uma ideia de Elissa.

Eventualmente, também incentivado por Elissa – que se tornara a sua conselheira de guerra número um – o Boetarca arriscava incursões noturnas que obtinham sucesso ao fustigar e amedrontar as legiões de Cipião incendiando os seus acampamentos.

Irritado com as tremendas dificuldades que lhe eram impostas pelos cartagineses e com a perda de homens tornando-se cada vez mais significativa, Cipião Emiliano chamou Gideon para consultas.

— Nesse ritmo, só tomaremos Cartago daqui a um ano, isso, se até lá o Senado não me destituir do comando e optar por negociar um acordo com os cartagineses, disse o inconformado general.

— Pois é, Asdrúbal é um osso duro de roer! E, além disso, tenho certeza que Elissa o está aconselhando. Ela é mulher, mas estudou táticas militares e tem um incrível talento inato para o assunto.

— Sugestões, príncipe? arguiu Cipião.

— Asdrúbal conta com o reforço de mercenários que estão sendo recrutados por mensageiros cartagineses e devem estar a caminho. Se conseguirmos cooptar e trazer esses soldados para o nosso lado, teremos força suficiente para ultrapassar as barreiras que ele construiu.

— E como faríamos essa cooptação dos mercenários?

— Bem, temos em nosso tesouro real uma considerável reserva de ouro, mas eu teria que convencer meu pai a liberá-la.

— Então, faça isso! Eu prometo que, após a nossa vitória, eu convencerei o Senado de Roma a devolver em dobro tudo o que for investido para comprar os mercenários.

Após mais um mês de combates, a situação da guerra parecia estabilizada.

Asdrúbal e Elissa estavam confiantes que, em breve, os romanos desistiriam da ofensiva em função do cansaço dos seus soldados e também da iminente chegada dos mercenários contratados por Cartago.

Todavia, em uma manhã cinzenta, eles viram por sobre as muralhas uma descomunal massa humana ultrapassando todos os obstáculos em volta da cidade, obrigando os soldados cartagineses a recuarem em desabalada carreira.

— Os malditos mercenários se venderam aos romanos! praguejou, Asdrúbal.

— Foi Gideon! Ele usou o ouro do tesouro númida para comprá-los, intuiu, Elissa.

Depois de duas horas de um combate desigual, as forças cartaginesas estavam dizimadas. Os poucos defensores da cidade ainda vivos foram desarmados e acorrentados juntamente com as mulheres, crianças e anciões.

Bomilcar suicidou-se cravando uma espada no coração.

Em pé no centro do portentoso salão de mármore que abrigava as reuniões ordinárias do Conselho dos cento e quatro, Asdrúbal e Elissa esperaram Cipião Emiliano e Gideon adentrarem o recinto.

— Vocês nos causaram grandes perdas, falou Cipião Emiliano.

— Parabéns, general, você ganhou! Assim é a vida dos indivíduos e dos povos, há um momento em que é ou tudo ou nada. Cartago e eu tivemos a nossa cota, filosofou, Asdrúbal.

— Gideon, sinto muito por tudo, mas não me arrependo de nada! Sou uma cartaginesa, sempre fui, falou Elissa, altivamente.

— General Asdrúbal, se deseja conservar a sua vida, quero que se ajoelhe na minha frente para que os meus soldados testemunhem esse momento!

— Sem chance, general Cipião! Faça o que tiver que fazer e que os deuses o amaldiçoem para todo o sempre!

— General, se não teme pela sua vida, talvez se importe com a vida da sua consorte! Se fizer o que mandei, prometo que ela viverá, caso não, ela morrerá agora na sua frente!

— Não tenho medo, general! Como disse o meu marido, faça o seu serviço sujo e que os deuses lhe deem uma morte indigna!

— Espere, Cipião, você prometeu que Elissa me seria devolvida! protestou, Gideon.

— Sinto muito, príncipe, agora a vida dela está nas mãos do general Asdrúbal!

Após alguns minutos de um silêncio sinistro em que todos ficaram paralisados, Asdrúbal manifestou-se:

— Muito bem, Cipião, eu farei o que você quer, disse o comandante decaído com a morte na alma, ajoelhando-se a seguir na frente do comandante romano.

Cartago foi incendiada e completamente destruída, sem que restasse pedra sobre pedra.

Asdrúbal, juntamente com os demais prisioneiros cartagineses, foi levado cativo para Roma.

Elissa, como Gideon exigira, voltou com o príncipe para a Numídia.

Cipião Emiliano desfilou em triunfo pelas barulhentas ruas de Roma e foi eleito Cônsul naquele ano.

Dois anos depois, em uma cela de Roma para prisioneiros estrangeiros:

— Elissa, como você chegou aqui? espantou-se Asdrúbal, maravilhado.

— Fugi, disse Elissa, abraçando demoradamente o esposo.

— Mas como você conseguiu fazer isso?

— Como você sabe, tenho os meus truques, replicou a linda cartaginesa.

— Que os deuses sejam louvados, minha querida!

— E agora, o que faremos, querido? Tenho ouro mais do que suficiente para subornar os carcereiros e levar a gente para qualquer lugar do mundo.

Revigorado, o ex-comandante militar de Cartago respondeu à fiel amada:

— Vamos para a Germânia, o único lugar do Ocidente em que Roma ainda não ousou pisar. Lá, os refugiados são bem-vindos.

— Certo! Vamos ensinar os germanos a aperfeiçoarem ainda mais as suas defesas contra Roma. Talvez um dia, de lá saiam os vingadores de Cartago.

Conduzindo uma carroça carregada de suprimentos para se passarem por mercadores, abraçados, apaixonados e açoitados por gelados ventos uivantes, os últimos cartagineses livres escreviam juntos a melancólica – mas não menos bela – poesia dos derrotados.

……………………………

*J. Emiliano Cruz é autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”,  obra editada pelo CAFÉ DO ESCRITOR – Curitiba/PR – www.cafedoescritor.com.br

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