Curta nossa página


Histérica alegria

Astolfo, as crianças e o parquinho

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Astolfo, aos 97 anos, cuja mobilidade era limitada pela idade avançada, tinha o costume de tomar banho de sol confortavelmente sentado em sua cadeira de rodas, que era empurrada por Lourdes, a bela cuidadora de 32 anos. Rumavam para praça e ficavam próximos ao parquinho, de onde podiam apreciar os cantos dos passarinhos e os gritos de histérica alegria dos miúdos.

Entre tantas crianças que corriam de um lado para outro, o idoso concentrou o olhar sobre uma menina e um menino, cada um com seus sete, oito anos. A energia daqueles filhotes de gente parecia sem limites, tamanha a quantidade de vezes que su-biam e desciam o escorrega. Impossível não se lembrar de quando, ele, ainda moleco-te, fazia o mesmo.

— Como o tempo voa, Lourdes.

— O que o senhor disse, seu Astolfo?

— A infância é a melhor fase da vida. Não é?

— É verdade. Concordo.

Quando voltou os olhos para a dupla peralta, Astolfo percebeu a presença de mais um guri, dois ou três anos mais velho, ao lado dos menores. O velho deduziu que seria o irmão mais velho, haja vista as características físicas.

O suposto primogênito parecia sério, como se o mundo já estivesse lhe pesando sobre os ombros. Certa altivez no olhar, o que deixou Astolfo intrigado. Nisso, o mais novo se aproximou e puxou conversa com o parente.

— Quer brincar?

— Não.

— Por quê?

— Só vim vigiar vocês.

— Vem brincar.

— Não.

— Por quê?

— Por que não.

A garota chegou mais perto e entrou na conversa.

— Vem brincar.

— Não.

— Por quê?

— Por que já sou grande.

— E daí?

— Daí o quê?

— Gente grande não pode mais brincar?

O menino maior, por um momento, pareceu incomodado. Ele voltou os olhos para trás, onde estava um casal conversando. Provavelmente seus pais. Depois olhou os irmãos, sorriu e saiu correndo para subir no escorrega.

As crianças brincaram, brincaram, brincaram, até que os adultos as chamaram. Era hora de voltar para casa. Astolfo pareceu satisfeito com as estripulias da menina-da.

— Sabe, Lourdes, minha mãe sempre me falava uma frase dita por vovó.

— E qual era, seu Astolfo?

— Os adultos deveriam aprender com a gurizada a gastar o tempo com o que realmente importa.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.