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Mulher não é objeto

Até Quando Seremos Assediadas?

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Até quando seremos assediadas?

A pergunta não é retórica. Ela atravessa nossos corpos todos os dias, nos ônibus, nas ruas, no trabalho, na universidade, dentro de casa. Não é um episódio isolado, é um sistema. Não é exceção, é regra. E nós sabemos disso porque vivemos.

Nós aprendemos cedo a nos proteger: mudar de roupa, ajustar o tom de voz, calcular horários, compartilhar localização, fingir ligações, atravessar a rua, sorrir para evitar conflito, silenciar para sobreviver. O assédio não começa no toque. Começa no olhar que nos mede, na palavra que nos invade, na certeza masculina de que nossos corpos são território público.

Quando perguntamos “até quando?”, estamos perguntando também por que. E a resposta não está no comportamento das mulheres, mas na estrutura que naturaliza a violência. Simone de Beauvoir já dizia que a sociedade constrói a mulher como objeto. bell hooks nos lembra que o patriarcado ensina aos homens o direito de acesso. Judith Butler aponta que certos corpos são historicamente tornados disponíveis, vulneráveis, violáveis.

Nós não somos assediadas porque somos bonitas, simpáticas, livres ou fortes. Somos assediadas porque somos mulheres. Porque o mundo foi organizado para nos lembrar disso. Angela Davis nos ensinou que a violência contra as mulheres não é um desvio moral individual, mas um mecanismo político de controle. O assédio é uma tecnologia de poder: ele nos assusta, nos limita, nos empurra para o medo.

E quando denunciamos, o foco muda. Perguntam onde estávamos, o que vestíamos, se reagimos, se exageramos. A violência se repete no julgamento. Hannah Arendt já alertava para a banalização do mal: quando a violência se torna cotidiana, ela deixa de chocar. Nós é que passamos a ser vistas como exageradas por não a aceitar.

Até quando seremos assediadas enquanto tentam nos convencer de que é elogio?

Até quando teremos que rir para não morrer?

Até quando a nossa liberdade será tratada como provocação?

Nós não queremos privilégios. Queremos existir sem medo. Queremos caminhar sem cálculo. Queremos trabalhar sem invasão. Queremos amar sem vigilância. O assédio não é parte da vida é parte da opressão. E dizer isso em voz alta já é um ato político.

Nós estamos cansadas de adaptar nossos corpos a um mundo violento. É o mundo que precisa mudar. Não é sobre educar individualmente cada agressor, mas sobre transformar uma cultura inteira que legitima o abuso e protege quem o pratica.

Enquanto isso não acontece, seguimos juntas. Nomeando. Denunciando. Escrevendo. Cuidando umas das outras. Porque se a dor do assédio nos atravessa, a resistência também nos atravessa.

Até quando seremos assediadas?

Até quando for permitido.

E nós estamos aqui para não permitir mais.

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