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Groenlândia

Atrito de Trump e UE é dança fora do compasso

Publicado

Autor/Imagem:
Antonio Eustáquio Ribeiro - Foto de Arquivo

A relação política entre EUA e Europa é historicamente marcada por demonstrações políticas de submissão europeia ao que pensa a potência da América do Norte, particularmente no que se refere a políticas de defesa. Porém, a relação entre estas duas forças políticas normalmente se pautaram pelo respeito mútuo. Algo que foi jogado na lata do lixo pelo atual governo de Trump, em que tanto ele quanto seu vice JD Vance não se cansam de humilhar publicamente a União Europeia (UE).

As discussões sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia são exemplo claro disso. Trump discute com a Rússia, tenta impor seus objetivos à Ucrânia e ignora solenemente a Europa, que reclama segurança contra investidas russas, e com isso insiste em alimentar a guerra enviando armas para a Ucrânia.

Agora está posta uma situação de difícil aceitação por parte da Europa e que está provocando um enorme rebuliço e discussão entre os países membros da UE, a anexação pelos EUA da Groenlândia, território autônomo ultramar da Dinamarca, um dos países da União Europeia. Os desdobramentos desta questão podem criar uma situação de implosão da aliança militar do Atlântico Norte, a OTAN, hegemonizada pelos EUA e que tem a participação de quase todos os países europeus para, supostamente, protegerem a Europa de uma possível agressão russa. A anexação da Groenlândia já foi sinalizada por Trump desde o início deste atual mandato.

Um dos princípios da OTAN é que se um país da aliança for atacado, os outros são automaticamente atacados, e devem responder conjuntamente à agressão. Mas o que está posto nessa nova investida imperialista de Trump é o que pode ocorrer se um país da aliança agredir outro país dessa aliança? Trump, em seus rompantes não descarta um ataque, pois já disse que a Groenlândia será dos EUA pela via pacífica ou pela força, seja econômica com sanções comerciais, ou pelo uso de armas.

Diante dos desmandos de Trump, potencializados recentemente pela agressão à soberania da Venezuela, ocasião em que a União Europeia fez tímidos comunicados de desaprovação, não se pode descartar uma tácita e envergonhada aceitação da anexação por parte da UE. Os desdobramentos podem colocar em risco a manutenção da OTAN, esta aliança militar cuja existência remonta à guerra fria, conflito surdo que justificou inúmeras agressões dos EUA a diversos outros países, inclusive o Brasil, em nome da contenção do comunismo.

O desmonte da OTAN, caso ocorra como decorrência da ação de Trump na Groenlândia, pode ser um evento alvissareiro ao determinar o fim do maior resquício da guerra fria, cuja existência, além de alimentar uma corrida armamentista que consome bilhões de dólares que poderiam ser direcionados para políticas públicas voltadas para a paz e o bem viver das comunidades, constitui um anacronismo num mundo multipolar marcado pela globalização, com mecanismos de freios e contrapesos expressos pelas organizações multilaterais como a ONU. Quem sabe, inclusive, o fim da OTAN possa ser o início de um movimento de revalorização da ONU como instrumento de concertação entre as nações.

Por fim, é fundamental reafirmar que o povo da Groenlândia não merece ser tratado da forma como está sendo, tendo todo o direito à sua autodeterminação, assim como qualquer povo, qualquer nação.

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Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa

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