Inspiração
Audaz navegante flutuando no quase líquido lamacento
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Sabe quando você está na ponta dos cascos pra escrever um texto, e de repente suas mãos desajeitadas deixam a inspiração cair por terra e descer pelo ralo?
Das duas, uma. Ou você desiste, adia a empreitada, aguarda o retorno da musa com uma nova sugestão, feitinha pro poeta (conheço muita gente boa, e nem tão boa, que age assim), ou encara o desafio e vai em frente. Isso exige encarar toda a sujeira que se acumula dentro de ralo e dos canos de esgoto – metáfora para o psiquismo e suas memórias, diga-se –, inspirar com força, prender a respiração e mergulhar atrás da presa não tão presa assim, fugitiva, no más.
É o que costumo fazer. Deslizo pelo ralo, impulsionando-me com as mãos pelo material quase pastoso, cheio de restos de hesitações, de covardias, de vilezas, de traições – mas também, é preciso dizê-lo, de resquícios de atos de nobreza, de amizade, de sinceridade, até mesmo de heroísmo, há de tudo nos escaninhos da memória e do inconsciente.
E então a vejo, audaz navegante flutuando no quase líquido lamacento do esgoto psíquico. Seu fulgor diminuiu com o contato com tanta sujeira, mas ainda brilha, farol a guiar-me. Tento avançar mais rápido pela podridão, até tocá-la de novo e prendê-la mais uma vez entre as mãos.
E então, olhando-a bem de perto, percebo que seu lustre original não era assim tão intenso. Detenho-me em meio aos detritos, naquele ambiente escuro que ela ilumina parcialmente, e tento imaginar como explorá-la. E concluo, triste, que não dá, não passava de inspiração para uma crônica bobinha, um poema chinfrim, um conto de meia tigela. Recuso-me a utilizá-la para algo tão insatisfatório
E empreendo o caminho de volta pelo material quase pastoso. E, nos restos de tudo o que vivi, nos atos/memórias de sombra e de luz, encontro os temas para novos escritos. Textos não inspirados pelas musas, antes (re)descobertos ao preço de um mergulho nos esgotos. Nos meus esgotos.