ADEUS DE CECI
Auf Wiedersehen! — Cecilia Baumann se despede dos escritores de Notibras
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São Paulo, 16 de fevereiro de 2026. Chegam-me as primeiras linhas desta breve crônica enquanto olho meu rosto cansado no espelho do elevador do prédio na Moóca. Sei que vou pedir que a publiquem no Café Literário dentro dos próximos dias. O carro que me levará ao aeroporto está lá embaixo, esperando. Eu não sei direito como vou ajeitar essa mala grande. Na bolsa de mão, levo os itens mais essenciais. Na cortina de lágrimas em meus olhos, levo o mais importante: memórias.
Por todo o tempo em que estive auxiliando meus amigos Daniel Marchi e Eduardo Martínez na edição do Café, só tive alegrias. A confiança e a liberdade total, por parte do Chefe, o José Seabra, para fazer o que precisava ser feito, são coisas que estimarei para sempre. Os textos, sempre enriquecedores, ganharam vida — bem como seus autores — às vezes até de modo surpreendente.
Agora, como parte de um projeto de vida, parto para a Alemanha, berço de meus antepassados, para trabalhar numa organização não governamental, em um setor ligado à cultura e às relações históricas entre o Brasil e aquele país europeu. E vejo o quanto a experiência em Notibras me valeu.
Faz um mês, mais ou menos, que tive a confirmação de que a vaga a que me candidatara, ainda em meados de 2025, seria minha. Tempo suficiente para organizar a mudança, liquidar alguns acúmulos no apartamento, já minimalista, e, sobretudo, dar aviso-prévio ao meu chefe e aos meus colegas de redação. Não foi sem algum sabor amargo na boca — prenúncio de uma saudade iminente — que comuniquei, primeiro, ao Dan e ao Edu, pois precisávamos pensar em alguém para me substituir na função; e, em seguida, ao Chefe. Foi difícil, mas era o momento.
Se eu pudesse, manteria as tarefas no Café Literário, mesmo a milhares de quilômetros de distância entre Brasília e Berlim. Mas há protocolos a seguir.
Para bem marcar a minha gratidão, comecei a me lembrar dos fatos mais marcantes do tempo em que estive a serviço deste jornal. Cataloguei o momento em que, a par de outras funções, passei a ajudar Eduardo Martínez e Daniel Marchi na seleção dos textos de novos autores para Notibras; a alegria que senti quando José Seabra nos comunicou que a ideia do Café Literário estava aprovada e teríamos um espaço tão lindo e democrático, que não encontra par em nenhum outro veículo de comunicação no Brasil da atualidade; e, sobretudo, as marcas do relacionamento pessoal com esses grandes escritores que tanto me ensinaram, no convívio ora presencial, ora remoto, e que me fez entender bem o papel de uma editora.
Não posso deixar de mencionar alguns fatos que os escritores — e leitores — de Notibras desconhecem. O primeiro é que, quando eu precisava ficar em Brasília, Edu e Dona Irene me recebiam na casa deles e, após o trabalho, conversávamos por muito tempo, sobre vários assuntos. Eu sempre fiquei impressionada com a cultura de Irene e com a forma como o Edu entende as coisas, com um ponto de vista sempre leve e otimista; e eu me divertia com seu humor. Vi, de perto, o começo da seleção dos textos para o livro “57 contos e crônicas por um autor muito velho”, de Eduardo Martínez, cada um mais surpreendente do que o outro.
No Rio, em breves passagens, sempre que possível estive com o Dan. Não esquecerei da vez em que me encontrei com ele e Renan Damázio, quando saíam do Tribunal de Justiça, e fomos até um shopping em Botafogo. Ali, no terraço do último andar, vi, pela primeira vez, a versão final de “A Verdade nos Seres”, que Daniel trazia numa pasta, e ele me convidou a escrever a orelha. Ficamos conversando sobre literatura e a vida e, ao cair da noite, sob o Cruzeiro do Sul no céu, Renan me falou dos poemas que reunia para um futuro livro, prestes a se materializar sob a forma do ainda inédito “Pássaros na janela”.
Daquele papo de horas, um detalhe curioso: eu estava numa fase bem delicada em minha vida pessoal e precisava muito me abrir em sessões de terapia. Dan desmarcou compromissos no dia seguinte para me levar, pessoalmente, até o consultório de uma pessoa que faria parte dos meus dias dali em diante, e que já se dispôs a continuar meu atendimento mesmo com um Atlântico nos separando. Trata-se da minha sensível e maravilhosa psicóloga Fabiana Saka, também uma das escritoras de Notibras, autora de “As aventuras de Daniel, não tenha medo de si mesmo”.
Ainda esta semana, estarei sob outro céu, vendo outras constelações, mas não deixarei de guardar o Café Literário no meu coração — e tantos autores e autoras que, diariamente, desfilam em suas páginas.
O show precisa continuar, e foi com muita alegria que soube quem ficará na função de editora-assistente do Café. A inteligente e doce Ju Trinxet, historiadora que vem desenvolvendo um trabalho notável de leitura crítica de novos autores. Recomendo vivamente que vocês fiquem de olho nela, para verem a profissional sensacional que é. Tenho absoluta certeza de que ela vai desempenhar seu papel com maestria, delicadeza e sabedoria.
Aos que tomo a liberdade de chamar de “meus escritores”, só posso expressar gratidão por terem me enriquecido tanto ao lidar com seus textos, ficando particularmente honrada com a confiança que sempre demonstraram no sério e empenhado trabalho do Café Literário, que continuará sendo um espaço amplo e democrático para a divulgação de novos — e antigos — autores e autoras de vários estilos e gêneros.
À equipe que ora deixo, agradeço pelo crescimento profissional que me proporcionaram. Terei saudades diárias. E sempre me sentirei parte de Notibras.
Muito obrigada por tudo e até sempre!
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Cecilia Baumann vai assumir novos desafios profissionais e deixa a função de editora-assistente do Café Literário, sendo substituída por Ju Trinxet.