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Palanque com purpurina

Avenida do samba merece grandeza; o resto é cinza

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

O Carnaval brasileiro sempre foi irreverente. Sempre foi político. Mas raramente foi pequeno. O desfile da Acadêmicos de Niterói não foi apenas enredo. Foi promoção política com plumas, bateria e dinheiro público. Foi palanque sob a égide confortável da manifestação cultural. E isso exige mais do que aplauso automático. Exige discernimento.

É preciso dizer, com justiça: o Carnaval gera emprego, renda e pertencimento. Move comunidades inteiras. A escola tem história, tem dignidade, tem importância social. Nada disso está em debate.
O que está em debate é a escolha de transformar a avenida em vitrine de exaltação a um presidente em exercício, com direito a recados explícitos a conservadores e religiosos e um humor que mais divide do que provoca reflexão.

Chamaram de arte. Pode ser. Mas também foi opção política. E opção política não é blindada contra crítica, sobretudo quando financiada por recursos que pertencem a todos.

Depois veio a narrativa da perseguição. Curioso. Quem decide subir ao palanque não pode se surpreender com o contraditório. Reação pública não é censura. É democracia funcionando.

Não me cabe dizer se houve crime. Isso é tarefa de tribunais. Mas houve, no mínimo, um desatino ético de proporções alegóricas. A legalidade é o piso. A ética é o teto. E o teto, dessa vez, foi baixo.

O Carnaval é maior do que governos. Já sobreviveu a ditaduras e a salvadores da pátria. Não precisa servir de biombo para marketing político. A avenida merece grandeza. O resto vira cinza.

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