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Promessa cumprida

Bebendo ou namorando, o que devemos fazer com os preconceitos de cada dia?

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Após anos lendo sobre os malefícios da bebida, tomei a decisão que mudou minha vida: parei de ler. Passada a fase em que achava que o boteco era o local de minhas melhores lembranças e risadas, me entreguei de corpo e alma a um tipo de droga com efeito muito mais traumático. Inalei coca dia e noite. E não me abstinha dos tamanhos. Das de 1,5 litro, às vezes consumia de dois a três engradados. Parei com a cheiração da coca no dia em que o litrão entalou em meu nariz de fornalha. Me reabilitei com a Pepsi.

A retirada e a reabilitação me custaram os olhos da cara. Uma pena não ter percebido antes que o cheirume, a essência e a inhaca são as mesmas do Guaraná Jesus. Puro preconceito. Procurei refúgio nas tubaínas, mas, ainda que tardiamente, optei pelo desapego das drogas fortes. Parei de vez e só me arrependi depois que me envolvi com um outro tipo de droga também preocupante: mulher feia. Quando percebi a furada em que havia me metido, já estava consumindo. Cheguei a ser dependente.

Em minhas elucubrações preconceituosamente mentais, achava que mulher bonita era feia porque, além de destilar charme e não ter humildade, beijava de boca fechada, assuntava com a luz apagada e só transava com as pernas cruzadas. Jovem, rapaz e homem feito, me criei para mastigar a abelha sem engolir o mel. Eis a razão pela qual, no trelelê diário comigo mesmo, tinha certeza de que a feiura feminina era apenas a falta de compreensão do que é a beleza.

Com conceitos absolutamente contrários a qualquer tipo de preconceito, faço questão de repetir que, feia ou bonita, gorda ou magra, seja como for, a mulher nasceu para ser respeitada. É o que faço. Por isso que não tenho receio algum de afirmar que jamais dormi com uma mulher feia. No entanto, já acordei com várias. No verso do meu santinho de cabeceira, está escrito que melhor uma mulher feia do que um homem bonito. Calma! Não é nada do que os preconceituosos estão pensando.

Trata-se tão somente de um ditado escrito por alguém que, como eu, foge de machos como se eles fossem o satanás de rabo grande. Não gostaria que entendessem como piada, mas a mulher feia capricha nos momentos de intimidade porque ela naturalmente acha que será a última vez que será procurada. Do alto de minha experiência com encantos que superam os da beleza, parto sempre do pressuposto de que para experimentar coisas ruins a gente tem de estar em um momento de equilíbrio, isto é, nem triste, nem muito feliz. Na verdade, precisei criar coragem para admitir que as mulheres feias se sentiam totalmente à vontade para me cortejar por uma razão óbvia: também sou feio.

Deliberadamente longe da vida mundana, descobri a tempo que não há no mundo uma única mulher que se ache feia. Às vezes, ela está mal arrumada. Nesse caso, basta que homens sãos e erectos ajudem as moças com produtos da Boticário, Jequiti, Natura, Avon, Riachuelo, Renner e demais casas do gênero. Quanto a mim, gosto cada vez menos de pessoas feias. Tanto que faz dez anos que não me olho no espelho. Sobre a bebida, parei de beber duas semanas e, cumprida a promessa, percebi que havia perdido 15 dias da vida. Resumindo a ópera, nem tudo que é bom é ruim. Ou vice-versa. Bom mesmo é saber o que fazer com os nossos preconceitos de cada dia. Eu já sei votar e chutar a bola. Agora só me resta sonhar.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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