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Pessoa ou adjetivo?

Becker e o dia em que alguém decidiu que você era “difícil”

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe um momento em que alguém deixa de ser uma pessoa e passa a ser um adjetivo.

“Ele é complicado.”

“Ela é difícil.”

“Fulano é problemático.”

Pronto.

Nasceu o rótulo.

Becker mostrou como o desvio não pode ser compreendido apenas como característica individual. Existem processos sociais de rotulação, julgamento e produção daquilo que passa a ser considerado inadequado.

Isso acontece o tempo inteiro.

Uma pessoa estabelece um limite.

“Difícil.”

Recusa uma injustiça.

“Difícil.”

Questiona uma ordem.

“Difícil.”

Não aceita determinada brincadeira.

“Difícil.”

É interessante como, frequentemente, “difícil” significa apenas “não está colaborando com aquilo que eu queria”.

O rótulo, então, torna-se uma ferramenta conveniente.

Porque depois que alguém é considerado difícil, tudo o que essa pessoa faz passa a ser interpretado por essa lente.

Se fala, reclama.

Se fica quieta, é arrogante.

Se vai embora, é problemática.

Se fica, está fazendo drama.

Não há saída.

Talvez seja por isso que precisamos ter cuidado com as palavras que usamos para descrever pessoas.

Porque palavras não apenas descrevem.

Elas organizam relações.

Criam expectativas.

Produzem reputações.

E, algumas vezes, condenam alguém a permanecer para sempre dentro de uma versão construída por outros.

Talvez seja mais justo dizer:

“Não gostei do que essa pessoa fez.”

Isso é muito diferente de dizer:

“Essa pessoa é assim.”

Uma frase descreve um comportamento.

A outra pretende explicar uma existência inteira.

E nós não temos esse poder.

Ainda bem.

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