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Realidade dura

Biomas nordestinos resistem a tempos ruins esperando a bonança

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Autor/Imagem:
Acssa Maria - Texto e Foto

No Nordeste, a natureza não é pano de fundo — é personagem principal. Ela respira junto com o povo, sofre com ele e, muitas vezes, resiste mais do que se imagina. Entre o verde que insiste em brotar e a aridez que molda destinos, os biomas nordestinos contam uma história antiga, marcada por beleza, abandono e luta por sobrevivência.

A Caatinga, única no mundo, é talvez o retrato mais simbólico dessa realidade. Espinhosa aos olhos apressados, revela-se delicada a quem aprende a observar. Ali, plantas guardam água como tesouro, animais dominam a arte da espera e o silêncio ensina paciência. Apesar de sua importância ecológica e cultural, é um dos biomas mais degradados do país. Protegida em partes, explorada em tantas outras, a Caatinga resiste entre o descaso e a esperança.

Mais ao litoral, a Mata Atlântica nordestina surge fragmentada, como páginas rasgadas de um livro antigo. O que um dia foi floresta contínua hoje sobrevive em manchas isoladas, pressionadas pela urbanização e pela monocultura. Ainda assim, esses fragmentos guardam nascentes, espécies raras e a memória viva de um Brasil que quase desapareceu. Protegê-los é um gesto de urgência — e também de reparação histórica.

Nos tabuleiros e áreas de transição, o Cerrado nordestino se apresenta discreto, frequentemente esquecido. Não tem o reconhecimento que merece, mas cumpre papel fundamental no equilíbrio climático e hídrico da região. Sua proteção ainda é tímida, ofuscada por interesses econômicos que avançam mais rápido que as políticas de conservação.

E há também os manguezais, berçários da vida marinha, sustentáculo de comunidades inteiras. Entre caranguejos, raízes aéreas e marés, esses ecossistemas garantem alimento, renda e proteção costeira. Mesmo assim, convivem com a poluição, o avanço urbano e a indiferença. São protegidos por lei, mas nem sempre respeitados na prática.

Dizer que os biomas do Nordeste são protegidos é, portanto, uma meia-verdade. Existem reservas, parques e iniciativas comunitárias que lutam diariamente pela preservação. Mas há também a fragilidade da fiscalização, a escassez de recursos e a falta de valorização do saber local — aquele que sempre soube conviver com a terra sem destruí-la.

Ainda assim, o Nordeste ensina que proteger não é apenas cercar, mas compreender. É reconhecer que esses biomas não são obstáculos ao desenvolvimento, mas sua base mais sólida. Enquanto houver quem plante, preserve e denuncie, haverá futuro possível.

Porque, no fim das contas, a natureza nordestina segue fazendo o que sempre fez: resistindo. Mesmo parcialmente protegida, ela insiste em viver — e em lembrar que sem ela, nenhuma história humana se sustentável?

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