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Devagar, devagarinho

Bolsonarismo rema contra maré no mar da orfandade

Publicado

Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Editoria de Imagens/IA

Notória e silenciosamente, a direita brasileira trabalha para expurgar do cenário político nacional a extrema-direita liderada pelo clã Bolsonaro. Associado às candidaturas de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missões), o deliberado afastamento dos partidos considerados conservadores da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) é o fermento biológico que faltava para que o destemperado, insosso e incomível bolo bolsonarista solar de vez. Como dizia minha avó boleira, bolo solado tem de jogar fora, pois nem os cachorros comem.

Ameaçadores, obscuros, negacionistas e golpistas, a tendência é que, desprezados até pelos pares da copa e da cozinha do clã, Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro comecem em breve a sofrer das duas piores dores de qualquer ser humano: a rejeição e a orfandade. Com dificuldades extremas para se apresentar como candidato ao Senado por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro tem remado contra a maré e igualmente deve naufragar no mar gelado dos catarinenses.

Nada de assustador para quem, de última hora, decidiu cantar de galo bom em terreiro infestado de galos ruins.

Da família, talvez o eleitorado consiga salvar Michelle Bolsonaro, potencial candidata ao Senado pelo Distrito Federal de Damares Alves e de Bia Kicis. De Renan Bolsonaro ninguém sabe, pouco se diz e, portanto, coisa nenhuma a declarar. O fato é que a campanha de Flávio Bolsonaro está no mesmo compasso de uma famosa canção de Martinho da Vila: “É devagar, é devagar, é devagar, devagarinho”. Quase parando.

Mesmos nos debates estaduais com participação de aliados contumazes do bolsonarismo, os candidatos têm ignorado a candidatura de Flávio 01. Tentando a reeleição em São Paulo contra o petista Fernando Haddad, Tarcísio de Freitas, cria do patriarca do clã, sequer lembrou do senador do PL no primeiro debate público entre eles. Seria o fantasma positivista da Covid-19? Será a necessidade óbvia de se afastar rapidamente do lado sombrio de uma família que mais assusta do que agrega?

Quem sabe a letalidade das falas de todos os que insistem em mostrar ao país que Jair Bolsonaro e sua prole são o que há melhor na política brasileira. Se um dia foram, hoje não são mais. Seja lá o que for, estou convicto de que é algo como um encosto, uma das piores armas de Satanás. Por isso, quanto mais longe melhor. O problema dos Bolsonaro é que seus principais nomes estão na fila para serem órfãos de amigos vivos. Daí a preocupação com o desamparo, o abandono e a ausência de um lugar do mundo onde estejam livres de Alexandre de Moraes.

Como reconhecer o vazio e aceitar que a dor existe são os primeiros passos para cuidar dela, certamente, a médio e longo prazo, Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro serão obrigados a buscar novos caminhos e amigos menos circenses. No exterior, o quadro também é negro. O engolidor de cobras e de facas Javier Milei talvez não se reeleja na Argentina. Nos Estados Unidos, Donald Trump, que já esgotou sua cota de mandatos, deve começar a perder poder em novembro, mês das eleições de meio de mandato. Caso os democratas alcancem maioria na Câmara, adeus cafuné interesseiro nos Bolsonaro. Resta se apegar aos governos do Paraguai, Peru, Colômbia e Chile, países governados por representantes da ultradireita. É só isso. Não tem mais jeito. Boa sorte

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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