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Talibãs amadores

Bolsonaro colocou Lula na cara do gol e agora só basta marcar

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto de Arquivo

Com a obrigação de fazer muito bem tudo que for preciso para recolocar a maior nação da América Latina nos trilhos, o presidente Luiz Inácio ainda não se deu conta do que terá pela frente. É claro que ele conhece o tamanho, a graduação e a robustez do pepino. Sabe também que o Brasil não foi apenas maltratado pelo antecessor. Foi desmontado, abandonado, vilipendiado, vandalizado e depredado econômica, financeira, cultural e politicamente e escorraçado internacionalmente. A devastação literal só não acabou com tudo e com todos por falta de tempo para que um determinado mito não transformasse o país em um inferno, muito pior do que o de Dante. Em verdade, Lula ainda não percebeu o peso interno e externo que terá seu governo.

Para sua sorte, além de apoio dos líderes dos países ricos, terá proporcionalidade entre a necessidade de agradar e o legado que deverá deixar para seus sucessores. Aliás, nada incomoda mais os seguidores daquela seita que dorme, acorda e sonha com um golpe que nunca virá do que a possibilidade de Lula da Silva fazer uma administração impecável, sem mancha, sem sigilos de 100 anos e com o cartão corporativo às claras. A maior preocupação desse povo é quanto ao tempo de duração da permanência do comandante petista como principal inquilino do Palácio do Planalto. Há quem diga que, por conta da idade avançada, ele se limitará aos quatro anos deste mandato. Pode ser. Tudo dependerá de sua disposição e, principalmente, da vontade do povo, também conhecido por eleitor.

Refiro-me ao mesmo eleitorado que, pela primeira vez desde a redemocratização, não reelegeu um presidente. E, graças a Deus acima de tudo e de todos, não o fez por razões óbvias. Quanto a Luiz Inácio, mesmo sob a sombra permanente das desgraças, atrasos e retrocessos bolsonaristas, reitero que seu compromisso com o Brasil passa obrigatoriamente pelo sepultamento definitivo das eventuais falhas de conduta de tempos que os adversários aventureiros não esquecem. Pensam e agem como terroristas e, por isso, imaginam que todos são iguais. Nunca endeusei e até agora não tenho conteúdo suficiente para endeusar Lula da Silva. No entanto, me faltam argumentos para marchar junto dos negativistas que apostam em um governo com alguma similaridade com o do mito.

Sinto contrariar os amaldiçoadores do alheio, mas dificilmente algum mandatário se aproximará do desastre que foi Jair Messias. Impossível esquecer os malfeitos do presidente “terrivelmente honesto”, para o qual o único ladrão era o outro. Lula pode ter contribuído, mas não foi ele quem ampliou o divisionismo por classes sociais, raça, credo e regiões. Não foi Luiz Inácio quem transformou a elite e seus dependentes em vaquinhas de presépio, em paus-mandado. Por questões meramente pontuais, é verdade que Lula indicará mais dois ministros para o STF, alguns para o STJ, outros para o TSE e TST e nomeará dezenas de desembargadores, procuradores, juízes federais e reitores de universidades federais. Faz parte de suas atividades.

O que ele não fará – pelo menos esperamos que não faça – é apoiar e consolidar ideologicamente milícias rurais e urbanas, abrir as portas para o sindicalismo retrógrado, usar o Estado como instrumento de cooptação política e de corrupção, muito menos torcer pela ampliação da miséria como modelo de dependência do governo. Naturalmente, o gado bolsonarista credita essas práticas como exclusividade do lulismo ou do petismo. Com a naturalidade dos beócios, eles esquecem que o maior protagonista dessas “técnicas” atende pelo pseudônimo de mito fujão. Com medo das consequências de seus demoníacos atos, partiu e não deve voltar tão cedo. De lá, não quer nem saber do passado, do presente e do futuro dos terroristas metidos a talibãs que criou e estimulou.

Do amadorismo e da inteligência artificial do criador e das criaturas, deve sobrar uma longa inelegibilidade para Jair. Nada de concreto até agora, mas certamente é algo com que sonham 11 entre dez integrantes do Partido das Lágrimas (PL), cujo líder vendeu a alma para ter Bolsonaro em suas fileiras. Deu no que deu. Deixaram o sapo barbudo sair do brejo. Com sua inteligência sem diploma, despertou paixões irreconciliáveis com a democracia e vai trabalhar exclusivamente para garantir a governabilidade. É uma questão de tempo. Sobre Jair Messias, ele perdeu, falhou no golpe e colocou o governo de Luiz Inácio na cara do gol. Agora e em 2026 é só chutar. Isso também é uma questão de tempo.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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