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Plano brilhante

Bolsonaro vive pesadelo das joias malditas das arábias

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto de Arquivo

No Brasil, ninguém é culpado até que se comprove sua culpabilidade em definitivo. Por isso, o bordão dos advogados sobre a inocência de seus clientes, mesmo quando eles são flagrados com a boca na botija. Às vezes, aquilo naquilo não prova nada. São os absurdos das leis brasileiras. O sujeito mata, estupra, rouba, esquarteja, mas só vira assassino, estuprador, ladrão ou esquartejador quando é condenado. Ainda assim, os famigerados recursos são capazes de gerar inocência quando o advogado é mais ou menos e o magistrado acima de qualquer suspeita. O caso da Boate Kiss é o maior exemplo desta afirmativa. Depois de julgados e condenados, a rapazeada fandagueira foi absolvida. Coisas do Brasil, onde o crime raramente não compensa.

Encaminhado há semanas ao ministro Alexandre de Moraes (o meu, o seu, o nosso Xandão), o minucioso e inquestionável relatório de Ricardo Capelli, ex-interventor na segurança do Distrito Federal, indica que o ex-secretário de Segurança da cidade, Anderson Torres, é um dos principais responsáveis pela deficiência no policiamento no dia 8 de janeiro, cujas falhas geraram a invasão e depredação das sedes dos três poderes da República. E daí? Até agora, o também ex-ministro da Justiça do Jair ficou calado. Está preso, mas, por recomendação do causídico, se mantém em absoluto silêncio. Ou seja, no jargão jurídico, tem evitado produzir provas contra si. Enquanto isso, o tempo passa.

E passará tão rápido como o 8 de janeiro, que, em breve, será esquecido por boa parte do povo, eventualmente conhecido por eleitor. Infelizmente, o tempo é o senhor da razão para os que jamais perdem a emoção. Para estes, a sensação clara é de que Anderson Torres acabará sendo canonizado. Ele e seus parceiros seguirão, de mãos dadas e celeremente, a caminho da plena e insuspeita ressureição política. Queira Deus e o papa Francisco que eu esteja enganado. A exemplo de milhões de patriotas verdadeiros e sem fantasias pirotécnicas, minha expectativa é no sentido de que a lei seja cumprida. E com o máximo rigor, da mesma forma que deve atingir os que, literalmente, defecaram nos salões nobres de Brasília.

Feita para todos, a lei não pode deixar de fora nenhum malfeitor. Tem de incluir o racista, o homofóbico, o machista, o fascista, o tirano, o maldoso e até o enganador. Mais fácil enquadrar quando todos esses “atributos” cabem em uma mesma pessoa. Claro que muitos daqueles que permanecem aleijadamente apegados ao golpismo não concordam com minhas ilações. E nunca concordarão. No entanto, morrerei insistindo nelas. Caso volte ao Brasil, o ex-presidente fujão dificilmente se livrará das barras dos tribunais. Seu desfecho talvez seja bem pior do que o de seu sucessor, cuja culpa ainda precisa ser provada. Óbvio que a inocência também. Quanto ao mito, é botar os pés sem solo brasileiro e requerer à família Marinho música no Fantástico.

Entre as bizarrices e as barbaridades do governo de sua insolência, o jogo mais perverso foi a combinação de sequências macabras, cujas cartas mais demoníacas culminaram no genocídio dos Yanomami, pouco caso com a morte de quase 700 mil brasileiros por covid e a fome que já atingiu cerca de 20 milhões de pessoas. A desumanidade com seu próprio povo não é nenhuma novidade. Bem lembrado por Francicarlos Diniz, um escrevinhador de cartas para o Correio Braziliense, foste um mau militar, um mau deputado e um mau presidente. Enfim, foste!

Viraram pó o mimimi das teses golpistas e o ódio que carrega no peito sem coração. Restou-lhe a mesma agonia dos irmãos com os quais brincou no período mais negro da Covid-19. Sem legado algum, provavelmente sobrará para o mito o buraco maldito dos insanos. Problema dele, pois não sou coveiro. Se não bastasse a desumanidade explícita com seu povo, o frustrado golpe de 8 de janeiro, cuja estratégia ele planejou, conseguiu destruir fisicamente as sedes dos três poderes, mas não derrubou a principal torre do país: a democracia. E o que sobrou do plano brilhante (sem alusão com as joias das arábias) do clã que foi para o beleléu. Além do Jair fugitivo e da madame joia rara, apenas sonhos derretidos e alguns cromossomos easy rider, isto é, sem destino.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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