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Camisa 8

Botafoguense bom é o que se iguala a Mendonça

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Reprodução das Redes Sociais

Aqueles que viveram os últimos anos de 1970 e primeiros de 1980 provavelmente se lembram da roleta russa (com todas as balas no tambor) que era torcer para o Botafogo, muito maior que as de outros tempos, apesar desse sentimento sempre perseguir os torcedores. Isso, aliás, torna os botafoguenses seres extremamente corajosos perante os percalços da vida, pois estamos acostumados às dificuldades que, por mais improváveis, acabam por acontecer.

Foi nesse cenário de exacerbado sofrimento que surgiu um camisa 8, mas que jogava como um 10, chamado Mendonça. Esbelto, cabelos encaracolados, ciente da sua grande importância como comandante daquele time nem sempre tão espetacular, apesar de alguns nomes de peso, Mendonça, como ele próprio já havia se definido, antes de ser um jogador do Botafogo, era um torcedor do Botafogo.

Como não se identificar com aquele cara tão simples, tão parecido com qualquer um sentado nas arquibancadas ou em pé na geral do Maracanã? Ainda por cima, o camisa 8 era um craque. Então, que me desculpem o Gerson e o Didi, mas o camisa 8 no meu time de botão sempre foi o Mendonça. Craque!!! Cracaço!!! Dava baile até mesmo no Maradona!

Engraçado como são as coisas. Meu pai, que era Vasco, sempre me falava do Garrincha, do Nilton Santos, de outras lendas também. Todavia, por maiores que tivessem sido as conquistas desses gênios, jamais os senti próximos. Eram como se fossem seres de outros planetas, inatingíveis, sem muita relação comigo.

Não é o caso de não reconhecer os feitos deles, mas não havia uma proximidade. Eu não queria vestir as lendárias camisas 7 e 6, imortalizadas pelo Anjo das Pernas Tortas e pelo senhor Enciclopédia. A minha vontade era de fazer uma tabelinha com o Mendonça nas peladas que eu jogava na rua. Puxa, seria o máximo, não perderíamos uma só partida. Seríamos imbatíveis! Mendonça e eu! Claro, teríamos que dar um jeito de jogar com camisas idênticas, pois a minha também era a 8.

Aliás, na rua havia partidas dos sem camisa contra os com camisa. E para mim sempre foi um motivo de angústia até saber que eu iria jogar nos com camisa. Era óbvio para mim jogar no time dos com camisa, pois eu não queria tirar a minha 8. Não me incomodava se ela ficasse encharcada de suor, que ficasse pesada e grudenta, pois sabia que, com ela, meus dribles seriam mais desconcertantes, que meus gols sairiam a qualquer tempo. Puxa, como eu acreditava nisso!!!

Não havia marcador que resistisse, já que eu era um representante do Mendonça em campo. Ou melhor, eu era o próprio Mendonça, fosse no duro asfalto, fosse na terra batida, seja nas areias de Copacabana. E, quando o gol finalmente acontecia, lá ia eu correndo com os dois braços erguidos para a imensa torcida, mesmo que ela existisse apenas na minha infantil imaginação.

Voltava pra casa embebido de tantos sonhos, provavelmente muito mais fantásticos do que os reais acontecimentos. No entanto, eu não percebia qualquer diferença. Mal abria a porta, minha mãe olhava pra mim e falava: “Direto pro banho!”

Eu tentava certo adiamento dessa sentença, mas minha mãe já ia arrancando a minha camisa, ou melhor, a camisa do Mendonça de mim. Todavia, parecia que o tecido de algodão havia se fundido à minha pele, tamanha a quantidade de suor, o que tornava a tarefa muito dificultosa, especialmente para mim. Absurdo, eu pensava, já que não suportava a ideia de não poder dormir com a camisa 8 mais linda, logo após aquelas jogadas magistrais, a maioria concluída com o balançar da rede adversária. É assim que me lembro desses dias, mesmo que eu possa ter esquecido de alguma frustração qualquer em campo.

Já na cama, relembrava as incríveis jogadas da tarde. E a partida nem precisava ter sido filmada, pois nem isso faria com que as imagens fossem mais nítidas do que as que eu conseguia visualizar na minha mente criativa. Muito além dos gols, cada jogada era repassada em câmera lenta, cada drible, cada passe magistral, que passava entre os atônitos adversários, fazia a bola encontrar algum companheiro na cara do gol.

Há alguns anos, minha esposa me perguntou quem foi o jogador de futebol de que mais gostei. Respondi sem pestanejar: “Mendonça!!!” Ela, na verdade, jamais havia ouvido falar dele. No entanto, após eu lhe mostrar alguns dos seus gols, ela ficou encantada, especialmente após ver aquele famoso “Baila Comigo” sobre o grande Júnior. Mesmo assim, ela me questionou por que eu não havia escolhido outros, que foram muito mais vitoriosos.

Pois é, somente após alguns anos da saída de Mendonça, é que o Botafogo, finalmente, voltou a ganhar títulos. Conquistou o carioca de 1989 de forma invicta. Eu poderia falar do Mauro Galvão, do Gottardo, do Paulinho Criciúma e, obviamente, do Maurício. Também poderia facilmente elencar outros craques posteriores: Wagner. Gonçalves, Sérgio Manoel, Donizete, Túlio, Jefferson, Dodô, Seedorf, Loco Abreu (a minha filha o adora), até mesmo o Sandro. Gosto deles, mas não com a intensidade que, ainda hoje, admiro o Mendonça.

Não sei quais são os motivos que fazem alguém se identificar com um jogador de futebol ou outro atleta. Definitivamente, no meu caso, a conquista de títulos não me influenciou. Não foi isso que me fez responder ao questionamento da minha mulher. Mendonça não é conhecido por títulos conquistados, mas sim por ser praticamente uma Estrela Solitária, provavelmente a única em uma época quase desértica de felicidade. Todavia, quando ele estava em campo, havia uma esperança de que, a qualquer momento, um milagre pudesse acontecer.

Difícil imaginar um cracaço daquele não ter conquistado muitas coisas para o time. O futebol é um esporte coletivo, não tem como jogar toda a responsabilidade sobre um único indivíduo, por mais incrível que ele possa ser. Seja como for, gosto de me lembrar das palavras do próprio Mendonça: “Não sou um jogador do Botafogo, sou um torcedor do Botafogo”.

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