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Realidade em números

Brasil da paz e da harmonia teme Brasil da política do ódio

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Paulo Withaker

Após algumas décadas de vida, minha única certeza é que, uma a uma, as coisas e as pessoas vão sumindo. Umas pagam suas dívidas e conseguem retornar. Outras surgem do nada, se apresentam como heróis, nada produzem e ao pó retornam como nada, vezes nada. A história está cheia de falsos salvadores da pátria, a vida é recheada de profetas espertalhões e o dia a dia repleto de oportunidades boas e ruins. Desde que o mundo é mundo e desde que nós (supostos racionais) resolvemos habitá-lo, conquistamos um dom espiritual e um direito divino muito caro para qualquer ser humano. Todavia, poucos sabem aproveitá-lo. Trata-se da liberdade de escolhas. E aí estão incluídas as afetivas, as emocionais e, infelizmente, as políticas. O que não conseguimos escolher são as famílias. Elas é que nos escolhem.

Melhor que seja assim, pois certamente o Deus acima de tudo estaria furioso com o desfecho político do Brasil, a pátria da religiosidade, das provações, das expiações e, lamentavelmente, também dos hereges. O que deveria unir uma nação pobre e desprovida de propostas futuras, divide, afasta e esfacela a família, grupo que em outros tempos servia de base para toda tentativa de progresso individual e coletivo. Hoje, nem tanto tempo se passou e enfrentamos o que de pior poderíamos viver. Difícil entender é como parte dos que protagonizam a barbárie se imaginam inatingíveis. Pois saibam que, como mortais, um dia todos nós seremos alcançados pela mão divina.

Chegado este dia, seremos apenas um monte de pó. Estamos aqui de passagem e, mesmo que não acreditemos, não ficaremos para semente. Nem mesmo os que fazem pouco caso das famílias ou dos semelhantes. E o que dizer dos profetas e heróis de araque? Para esses, um dia o fim do caminho será mostrado de forma bastante clara. As águas de outubro, mais precisamente as do dia 2, definitivamente varrerão seus nomes para debaixo de uma infinita ponte sombria e sem curvas. Obviamente que ficarão muitos. Para esses, sobrarão “o pau, a pedra, um caco de vidro, um resto do toco”. O tombo da ribanceira não será o mistério profundo escrito pelo poeta. Na verdade, será “o fim da ladeira, a vida, o vão, a chuva chovendo, a marcha estradeira, a pedra de atiradeira”.

Poderia ser mais objetivo e dizer que quem com ferro fere, com ferro será ferido. Para quê? Melhor ser forte de forma mais sensata. Por isso, prefiro as metáforas. Elas são alcançadas somente pelos mais inteligentes. Porque supostamente têm a força, os fanáticos e desinteligentes permanecerão achando que são os maiorais. E não são, embora vivam de ameaças, agressões, ofensas e assassinatos banalizados em nome do rei. São os defensores do chamado bem contra o mal. São os do bem que, curiosamente, matam para defender um bem que não admitem ser mal. Imaginem se fossem realmente do mal. É a nossa realidade. É a realidade brasileira mostrada em números, conforme recente pesquisa pré-eleitoral.

Terrível, mas é a cara do Brasil de nossos dias. De fim de mundo, o resultado comprova os tempos bicudos que cortejamos: sete em cada dez brasileiros dizem ter medo de serem agredidos fisicamente por causa de suas escolhas políticas. Eu tenho. E muito. O perigo ronda nossos lares, nossas caminhadas, nossos posicionamentos e nossas famílias. Não se iludam os mais pessimistas, porque eles – o perigo e seus formuladores – rondarão as urnas eletrônicas daqui a 17 dias. Talvez seja a única forma de o principal articulador do medo e maior destilador do ódio se manter no palco, mesmo sem luz e sem astros. Poderia aceitar lamentando caso tudo isso acabasse definindo nossa identidade política.

Puro e infantil devaneio, pois, no dia seguinte à definição do novo rei, outros postulantes de extremos surgiriam para ameaçar o reino e nossas liberdades. O sentimento é de torpor. Tenho certeza de que jamais voltarei a habitar o Brasil dos sonhos de menino. Quanto à eleição presidencial, estou convencido de que ela não será apenas a mais chata da história. Será a mais violenta e perigosa de todos os tempos. Provavelmente, nem todos sairão vivos dela. Acabou a harmonia. Não sei se por falta de conhecimento ou pela necessidade de, num eventual futuro, se escorar no mestre truculento contra a tranquilidade dos considerados inimigos, parcela razoável do povo brasileiro já escolheu o caminho da dor e do ódio. É o modo de viver daqueles que não sentiriam falta do pai ou da mãe, caso eles pensassem diferente e tivessem de partir agora. É o Brasil da paz e da harmonia com medo do Brasil do ódio.

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