Sol de primavera
Brasil vai chegar em setembro sem os dois pesos e as duas medidas
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No Brasil do colarinho branco e dos advogados bem pagos para justificar e empurrar para outras vidas qualquer malfeito de nossas doutas e impolutas autoridades, os ladrões de galinha, de sandálias havaianas ou de iogurtes desnatados não têm a mesma sorte. Quando não morrem após uma sessão de tortura, são presos e raramente liberados nas audiências de custódia. De tipos variados, de pobres coitados acabam trancafiados como elementos de altíssima periculosidade. Na maioria dos casos, furtaram peças de picanha, pacotes de camarão, ovos de Páscoa, sacos de arroz ou feijão e até os embutidos encalhados, os quais, semanal ou mensalmente, têm as etiquetas de validade criminosamente trocadas para burlar a fiscalização.
Enganar o consumidor, quebrar um banco e vender ativos inexistentes para outra instituição pode, pois, conforme a legislação, são crimes de “pequena monta”. Embora com desfecho diferente, furtar uma peça de picanha em um supermercado também deveria ser. Coisas do Brasil com eternos dois pesos e duas medidas. E um punhado de joias milionárias sabidamente públicas, mas que quase viraram privadas? Registre-se que, caso o sujeito da narrativa tivesse sido reeleito, a preciosa coleção iria gerar uma fortuna incalculável em algarismos arábicos e romanos para o insaciável ex-comandante da cavalaria da Aeronáutica, das corvetas do Exército e da força aérea da Marinha.
Ou seja, sabia tudo de joias, relógios e braceletes, mas confundia tudo no governo e nada sabia de comando. De tão ruim como mandatário, conseguiu matar seu capital político ainda em botão. E demorou para o xerife Xandão conceder a ele o mesmo tratamento dado aos afanadores de gêneros alimentícios. Ao contrário do que tenho lido e ouvido, o arsenal de provas revela que o golpe e a negociação com as joias das arábias não são perseguição, muito menos apenas suposição. Verídicos e inquestionáveis, os fatos são diariamente referendados pelas numerosas trocas de mensagens cabulosas entre os envolvidos e, por isso, viraram ocorrências policiais.
A verdade pululou daqui para lá, de lá para cá e de cá para todos os cantos do planeta. Por essa razão, o recolhimento foi necessário para evitar que, mesmo devedor da lei, seu nome fosse registrado na urna eletrônica para as eleições de outubro. O xerife Xandão demorou, mas decidiu o que poucos brasileiros acreditavam que pudesse acontecer. Apesar do lixo produzido em quatro anos de gestão, o ex-presidente acabou no luxo. O sono talvez seja leve. No entanto, os pesadelos demoníacos na Papudinha serão longos.
Com rara inteligência e, como todo bom sertanejo, que sempre espera o tempo bom, Xandão já deve ter sonhado com Bolsonaro as mesmas 93 vezes em que citou o ex-presidente nas 105 páginas dos autos encaminhados por ele à PF antes do julgamento e da consequente condenação. Ou seja, previsões à parte, assim como o documento, sonhos são prenúncios de nuvens negras, raios, trovões e muito chumbo grosso sobre o lar. Se tudo der certo e fevereiro passar em branco, quando entrar março o imbróglio do Banco Master acabará antes do outono, período em que as folhas caem no quintal e que tudo é sempre igual.
Até lá, justa ou injustamente, alguns dos ministros do Supremo Tribunal Federal serão atacados sem cessar pelos seguidores de Bolsonaro. Em agosto, o Tribunal Superior Eleitoral volta à berlinda. Pessoas de boa e de má-fé novamente culparão as urnas eletrônicas pela derrota bolsonarista em 2022. Difícil explicar para umas que o voto eletrônico é seguro porque é sigiloso. Pior ainda é informar às outras que o descrédito ao sistema faz parte do modus operandi dos perdedores. A boa nova talvez comece a surgir em setembro, véspera da eleição de outubro. Beto Guedes que o diga: “Já choramos muito/Muitos se perderam no caminho/Mesmo assim não custa tentar/Uma nova canção/Que venha nos trazer/Sol de primavera. A lição o brasileiro já sabe de cor.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais
