Curta nossa página


Força do Zap

Brasil vive clima de retrofit eleitoral no submundo das campanhas

Publicado

Autor/Imagem:
João Moura - Foto Editoria de Artes/IA

O WhatsApp é um aplicativo de mensagens instantâneas usado principalmente no celular, mas também no computador. Ele permite que pessoas conversem em tempo real por texto, áudio, chamadas de voz, chamadas de vídeo, além do envio de fotos, vídeos, documentos e links.

Criado em 2009 e hoje pertencente à empresa Meta (a mesma do Facebook e Instagram), o WhatsApp se tornou uma das principais formas de comunicação no Brasil e em muitos outros países. Um de seus pontos centrais é a criptografia de ponta a ponta, o que significa que apenas quem envia e quem recebe consegue ler ou ouvir as mensagens — nem a própria empresa tem acesso ao conteúdo.

O aplicativo funciona tanto em conversas individuais quanto em grupos, que podem reunir dezenas ou centenas de pessoas. Esses grupos costumam reproduzir relações do mundo offline (família, trabalho, igreja, escola), o que faz com que as mensagens circulem em ambientes de alta confiança social.

O WhatsApp não é apenas uma ferramenta de comunicação pessoal: ele também se tornou um espaço central para circulação de informações, opiniões e disputas políticas, com grande impacto na formação de percepções e decisões cotidianas.

O submundo das campanhas eleitorais passa a ser privado, rápido e pouco visível para fiscalização externa e tem um codinome que não é beija-flor.

É na guerra silenciosa do WhatsApp, hoje, um dos terrenos mais decisivos da disputa política. Diferentemente do palanque, visível e regulado, ou do feed das redes abertas, sujeito a métricas e moderação, que se definirá as eleições 2026. O WhatsApp opera no espaço íntimo das relações pessoais. É ali, nas conversas de família, nos grupos de igreja, de condomínio ou de trabalho, que circulam narrativas políticas com aparência de confiança. A força desse ambiente está menos na tecnologia e mais no vínculo afetivo que legitima a mensagem.

No desenvolvimento dessa guerra invisível, o principal ativo não é o alcance massivo, mas a credibilidade social. Uma mensagem encaminhada por alguém próximo carrega um selo implícito de verdade, mesmo quando é falsa, distorcida ou manipulada. Áudios emocionados, vídeos curtos e textos alarmistas são moldados para provocar medo, indignação ou sensação de urgência — emoções que reduzem o senso crítico e incentivam o compartilhamento automático. O resultado é um fluxo constante de informação política que escapa ao debate público tradicional.

Outro elemento central é a opacidade estrutural da plataforma. Por ser criptografado e privado, o WhatsApp dificulta o monitoramento externo, a checagem em tempo real e a responsabilização de quem produz campanhas coordenadas de desinformação. Isso cria um campo fértil para estratégias que jamais resistiriam à luz do espaço público. Não se trata apenas de convencer, mas de saturar o ambiente com versões concorrentes da realidade, enfraquecendo a ideia de verdade compartilhada.

Essa dinâmica altera profundamente a lógica eleitoral. Em vez de disputar propostas e projetos de país, a guerra silenciosa aposta na erosão da confiança institucional e na polarização moral. O adversário não é alguém com ideias diferentes, mas uma ameaça existencial — à família, à fé, à pátria. Assim, o WhatsApp deixa de ser apenas um meio de comunicação e se transforma em um dispositivo de mobilização política contínua, operando fora das regras clássicas da democracia representativa.

Sendo assim, conclui-se que o campo mais decisivo da eleição atual não está onde os holofotes apontam. Enquanto campanhas investem em marketing público e debates televisivos, a disputa real acontece nas brechas do cotidiano, onde quase ninguém monitora direito. Entender essa guerra silenciosa é essencial para compreender por que eleições são decididas menos pelo que é dito em público e mais pelo que é sussurrado, repetido e naturalizado no espaço privado das mensagens instantâneas.

……………

João Moura é Professor, Filósofo, Designer Thinker e observador da anatomia de governos e sociedade.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.