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A aniversariante

Brasília, 63 anos, e patrimônio cultural da era modernista

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Daniella Longuinho/Via ABr - Foto Marcello Casal Jr

Em homenagem ao aniversário de 63 anos de Brasília, comemorado neste 21 de abril, a Rádio Nacional traz um pouco da história da construção da capital federal, revelada em conversa com Frederico Flósculo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.

A construção muito peculiar da capital federal no Planalto Central conferiu a cidade características que vão desde aspectos monumentais à arquitetura inovadora, o que conferiu a cidade em 1987, o reconhecimento da UNESCO como Patrimônio da Humanidade. O que torna o conjunto urbanístico arquitetônico de Brasília tão especial?

Brasília é um episódio extraordinário da história brasileira, porque sobretudo foi a realização do sonho republicano de transferência da capital da República para o interior do Brasil. Isso era um sonho até anterior à República. Foi um sonho expressado por José Bonifácio, por líderes brasileiros que viam a necessidade de bem defender a capital brasileira, mas bem administrar um país gigantesco. Então, finalmente, Juscelino Kubitschek conseguiu fazer isso e a história desse sucesso é uma história muito particular, porque se deveu muito, tanto aos trabalhos do próprio [Getúlio] Vargas, porque Vargas quase cria Brasília, ele criou comissões de estudos e montou todo o grupo praticamente que depois foi usado pelo próprio Juscelino, mas também por Juscelino Kubitschek que foi assim o grande herói de Brasília porque ele enfrentou uma oposição política, extraordinariamente, agressiva contra a realização da cidade.

Mas Juscelino teve a seu favor a contribuição de um extraordinário arquiteto. Oscar Niemeyer. que ele já conhecia desde os tempos de prefeitura de Belo Horizonte, desde a década de 30. Oscar Niemeyer e Juscelino tinham uma amizade, uma sólida confiança mútua e Juscelino confiou ao Oscar o projeto de Brasília. Só que Oscar Niemeyer, cuidadosamente, sabiamente, recusou. Oscar Niemeyer era ligado a OAB, propôs a realização de um concurso público nacional e nesse concurso nacional, em 1957, foi vencedor outro extraordinário urbanista carioca, Lúcio Costa. Embora nascido na França, Lúcio Costa era mestre de Oscar Niemeyer, um grande reformador do ensino brasileiro, criador do Iphan. Na verdade, o Serviço Nacional depois se tornou o Instituto Nacional do Patrimônio Público, Histórico e Artístico Nacional. E aí, é a proposta de Lúcio Costa, extraordinária, que vai começar realmente a concretizar Brasília. Então Lúcio Costa propõe uma cidade muito simples o traçado, dois eixos que se cruzam, um eixo descendo assim na direção do lago que já estava definido e outro eixo, fazendo o abraço do grande morro do Cruzeiro. E é ao longo desse eixo que faz o abraço que estão distribuídas as superquadras residenciais. E no eixo que desce o morro na direção do lago ele se tornou o eixo monumental onde são colocadas as principais zonas, setores tanto da capital da República, quanto de apoio e atração as funções fundamentais da cidade.

O senhor mencionou a história do concurso do plano piloto e eu gostaria de saber quais os principais destaques do projeto de Lúcio Costa e como ele foi colocado em prática.

E aí é uma história, extraordinária, do próprio concurso. Lúcio Costa quando propôs, ele propôs realmente de todos os planos que tinham sido apresentados, o mais elegante, ele propôs uma cidade parque que foi escolhida pelo júri que tinha membros internacionais ,eles escolheram por causa da simplicidade e viabilidade e extrema beleza do plano. O Juscelino queria que o Oscar fizesse os prédios, os edifícios, o projeto de arquitetura. E teve um urbanista vencedor do concurso que eles dois teriam que trabalhar juntos. E o Juscelino conhecia muito bem arquiteto e urbanista. Sabe como é essa turma que não se concilia, que não é muita amiga, você vai ter um inferno na terra. Aí ganhou esse presente aí. Realmente a escolha foi isenta e um grande mestre e companheiro de Oscar foi o vencedor. Os dois, então, fizeram a cidade que é tanto do Lúcio quanto do Oscar.

Há vários episódios em Brasília, no Congresso Nacional em que se você ficaria espantada em ver como por exemplo aquele jogo belíssimo de formas das duas cúpulas, uma virada pra cima, os dois edifícios gêmeos, tudo aquilo foi concebido simultaneamente por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A gente atribui só ao Oscar, mas quem começou a desenhar, fez a primeira proposta do Congresso Nacional, foi Lúcio Costa. E Oscar duplicou e aí começa uma sucessão de realizações extraordinárias em pouco mais de dois anos de trabalho, de projeto de execução, graças também a um grande engenheiro chamado Israel Pinheiro.

Então é algo que emociona a brasilidade, se você pensar que, em cerca de mil dias, essa equipe heroica conseguiu entregar para o Brasil no dia 21 de abril de 1960, a capital com o presidente instalado, com os poderes instalados em condição de começar a fazer com que o governo brasileiro se manifestasse e fizesse a gestão do Brasil desde o Planalto Central. Um momento de imensa emoção. E a partir daí, o Brasil começou a conhecer Brasília. Porque ninguém sabia que coisa era aquela, que eles conheciam por algumas fotografias da obra, por alguns desenhos da obra. A brasilidade ao longo daqueles anos 60, 70, veio, desceu, veio de todo o planeta Brasil para trabalhar em Brasília, nas suas embaixadas, nos seus ministérios. Virou um centro de brasilidade, assim, que nos orgulha. Não há cidade, capital, no mundo, que tenha a beleza, a integridade, a elevação de Brasília. É por isso que no final dos anos 80, acabamos sendo distiguidos pela UNESCO com o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. O único Patrimônio Cultural da Humanidade que é modernista, que é do século 20.

Professor Flósculo, pelos aspectos urbanísticos, como a cidade se transformou ao longo desses 63 anos de existência?

Estamos num processo agora de preservação desse núcleo porque contra, digamos, a integridade daquela Brasília de JK, de Oscar Niemeyer, de Lúcio Costa, de Israel Pinheiro, há muitos inimigos, eu coloco meio que entre aspas, representados pelos especuladores imobiliários. Pelos oportunistas, pelos grileiros, por várias ondas de pessoas que pensam poder impor à Brasília o mesmo tipo de derrota urbana que foi imposta, em especial, ao Rio de Janeiro. Então nós temos esse estigma também. De não permitirmos que aquilo que aconteceu no Rio, que ainda continua a aterrorizar a antiga capital, isso aconteça em Brasília, mas infelizmente já está acontecendo. Nós temos desde aquele momento de inauguração em 21 de abril de 60, até hoje, esses 63 anos que se passaram, várias descontinuidades que foram quase fatais pra Brasília. Continuidades cruéis como da ditadura militar. E quase mata Brasília. Quase que os militares conseguiram arrebentar com todo aquele impulso de criação da cidade, de republicanismo. Isso foi muito importante porque com a retomada da democracia em meados da década de 80, nós tínhamos uma democracia interrompida. E nós tivemos a seguir uma sucessão de governadores, francamente, desastrosa. Brasília não teve sorte, até hoje, com sua democracia porque os governadores não tem mostrado, digamos assim, identidade e consciência da grandeza do projeto da cidade, ao contrário, Brasília se tornou cada vez mais objeto fácil de projetos pessoais, de projetos menores, de especulação e, até mesmo, de corrupção do uso do seu território.

Para encerrar, o senhor pode comentar sobre o que avançou em termos de ocupação da cidade, a exemplo de políticas como planos de preservação do conjunto urbanístico de Brasília, que espera há dez anos por finalização.

Frederico Flósculo: Nós chegamos no ano de 1993, quando Brasília já tinha autonomia política desde 88, nominalmente, pela Constituição Federal e desde 90, pela eleição do primeiro governador. E é aí que, em 93, nós temos a Lei Orgânica do Distrito Federal, definindo a necessidade de um PPCUB, e um plano de preservação do conjunto urbanístico de Brasília. Desde 93 até hoje, 2023, nós temos aí um lapso de 30 anos. 30 anos de lapso, em que Brasília não conseguiu fazer o seu PPCUB. Quer dizer, era um dos primeiros planos a terem sido feitos em 93, nunca foi feito. Por quê? A razão é: governadores em sucessão, até os dias de hoje, não queriam fazer com que a preservação travasse seus negócios. Quer dizer, é quando o planejamento faz mal a política. E isso, infelizmente, acontece no nosso país. Não termos um PPCUB é algo escandaloso e é indício de péssima gestão pública. Nós temos aí, às vésperas de ter um PPCUB péssimo, na minha avaliação, o PPCUB, o primeiro PPCUB já vai ser cheio de maus movimentos do governo. Com coisas inacreditáveis, loteamento do eixo monumental, de lotes gigantescos destinados a restaurantes, a shoppings, a um monte de coisas que seriam muito bem-vindas nas cidades, nos bairros, nas administrações e não no eixo monumental.

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