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Hiena

Brasília, centro do poder, vai além da corrupção

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Autor/Imagem:
Ray Cunha - Foto de Arquivo

Moro em Brasília desde 1987. Aqui, trabalhei nos mais importantes jornais impressos, como repórter, redator e editor. No BSB Brasil, do jornalista Oliveira Bastos, integrei a Equipe Cão, com a incumbência de produzir uma página diária sobre uma determinada cidade do Distrito Federal ou do Entorno de DF. No Correio Braziliense, fui subeditor de Cidades e de Cultura, editor de Resenhas e redator da capa – o que me obrigava a ler pelo menos meia dúzia de jornalões por dia. Como repórter, cobri também o Congresso Nacional. Isso me ajudou a compreender Brasília.

Além do trabalho jornalístico, gosto de História, de compreender o passado. Assim, pesquisei sobre a razão pela qual Brasília foi construída e deu certo. Também procurei analisar seus mitos e sua realidade. Foi assim que, em 2013, na presidência de Dilma Roussef e do governo distrital de Agnelo Queiroz, ambos do PT, em escrevi o romance de detetive Hiena (Clube de Autoresamazon.com.br e amazon.com, 2014, 155 páginas).

Atravessávamos, no país, desencanto, com a corrupção contaminando até o tutano da máquina pública. Dilma Rousseff dispensa apresentação. Como diz o jornalista Augusto Nunes, Dilma só tem um neurônio. Já o médico baiano Agnelo Queiroz é conhecido como Agnulo – isto diz tudo. E eu estava desempregado, tentando sobreviver tocando uma banca de revista no subúrbio de Taguatinga, que é uma cidade do DF. As bancas de revistas da cidade já estavam se transformando em pamonharias.

Hiena foi surgindo naturalmente durante as minhas caminhadas. Em casa, era só digitar os capítulos. De modo que fiquei surpreso com a trama do livro, redondinha. Outra coisa que me surpreendeu foi a ambientação. Brasília está presente de corpo e alma, e nua. Ali está a Brasília subterrânea, corrupta, valhacouto de assassinos, psicopatas, narcotraficantes, terroristas e abortos de ditador. Mas também está presente a Brasília monumental, iluminada e tombada.

Neste cenário, além dos personagens de ficção, como a famosa Brigitte Montfort, também coloquei no thriller pessoas reais, vivas e mortas, como, por exemplo, os artistas plásticos Olivar Cunha e André Cerino; as cantoras paraenses Carmen Monarcha e Joelma; o escritor amapaense Fernando Canto; e ressuscitei o maestro Silvio Barbato.

Hienas são como bactérias grandes. Bandidos do reino animal. Atarracadas, quartos traseiros caídos, andar manquejante, começam a comer a vítima viva ainda na perseguição, rasgando-lhe o ventre, as vísceras espirrando. O humorista carioca Juca Chaves, Jurandyr Czaczkes, cunhou uma frase que se tornou um mito persistente: “A hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?”

Mas a Crocuta crocuta é predador sem igual. Caçadora formidável, chega a perseguir suas presas à velocidade de até 55 quilômetros por hora, em grupos que chegam a 100 indivíduos. O segredo desse vigor é um coração poderoso. Mas o que as tornam resistentes como baratas é que podem se alimentar de praticamente tudo, desde filhotes de leão, passando por insetos a ovos de avestruz, até carniça já cheia de vermes e de outras hienas, além de suas próprias fezes. Contudo, caçam também animais de médio e grande portes, como gazelas, impalas, gnus e zebras. Suas mandíbulas são tão potentes que comem, normalmente, os ossos das suas presas, razão pela qual suas fezes são esbranquiçadas.

O detetive Hiena, Crocuta crocuta, como chama a si mesmo, não é bem o que Juca Chaves disse. Embora discreto, quando ri para valer sua gargalhada é atroadora. Gastrônomo, elegeu a cozinha paraense a melhor do mundo. Vive só, embora tenha namorada. Têm em comum com a Crocuta crocuta alguns traços, como o sistema imunológico, pois nunca ficou sequer resfriado; pode se alimentar de comida estragada sem se preocupar, já que não se intoxica; conta com dentes de aço; é resistente como as baratas; e capaz de atravessar qualquer circunstância de extrema tensão sem que seu batimento cardíaco se altere.

Também guarda um traço físico em comum com a Crocuta crocuta: o tórax largo, sem ser do tipo cangula (sinônimo de pipa na terra das suas duas mães, Belém do Pará), largo em cima e fino em baixo.

Com um metro e oitenta, lábios carnudos, cabelos de Al Pacino, o que mais chama atenção em Hiena são seus olhos bicolores, que amanhecem com um tom azul claro, permanecendo assim nos dias frios, mas, à medida que a temperatura sobe, vão ficando como lápis-lazúli, e, à noite, independentemente do tempo que estiver fazendo, são sempre duas esmeraldas. Adotou o cognome Hiena por uma série de circunstâncias. Afinal, como disse José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”.

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