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Celina abismada

BRB manda ladrões fugirem e evitar prisões

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

Em 56 anos de jornalismo, não canso de exaltar Brasília como uma cidade extraordinária. Principalmente porque, na capital da República, às vezes o alarme dispara depois que os bombeiros voltam para o quartel.

E foi assim, em tom definido como estranho, que muita gente do mercado financeiro recebeu a notícia da convocação, com trinta dias de antecedência, de uma Assembleia Geral Extraordinária do Banco de Brasília. A reunião é para deliberar sobre eventuais medidas contra antigos integrantes da alta administração e servidores, relacionadas à maior crise da história recente da instituição.

Trinta dias, os entendidos sabem disso, é tempo de sobra para preparar um inventário. E no mercado financeiro, esse período não corresponde a um prazo, mas a uma eternidade. É tempo suficiente para um investidor ganhar uma fortuna, para uma empresa mudar de dono, para uma crise derrubar presidentes de bancos e até para um patrimônio inteiro trocar de endereço.

Daí a pergunta que ecoou nos corredores e nas mesas onde se mistura cafezinho, vinho e informação privilegiada apenas distante da imaginação popular. Afinal, por que anunciar hoje aquilo que somente produzirá efeitos daqui a um mês?

Quem conhece minimamente o funcionamento de grandes instituições financeiras sabe que discrição costuma ser irmã da eficiência. O método implica em primeiro agir e só então comunica-se. Preservam-se, assim, provas, ativos, credibilidade mesmo que duvidosa e, principalmente, a confiança de quem observa. Quando acontece o contrário, instala-se um esporte nacional chamado especulação.

Na quinta-feira, 6, as conversas em um concorrido restaurante do Lago Sul giravam menos em torno do cardápio e mais em torno do mercado imobiliário de luxo. Falava-se sobre imóveis sendo negociados com rapidez incomum e valores surpreendentemente inferiores aos praticados em regiões onde cada metro quadrado costuma valer ouro.

Comentários de bastidores não são e nunca foram provas. Mas bastidores costumam revelar o tamanho da desconfiança quando a plateia deixa de acreditar no roteiro. O problema reside justamente aí, pois é onde mora o problema.

Se a convocação da assembleia atende rigorosamente às normas societárias, tanto melhor. A legalidade é indispensável. Contudo, legalidade nem sempre produz boa estratégia. Lembremos, a título de ilustração, que a política ensina que não se avisa ao adversário a hora da ofensiva.

Respeitada essa linha de raciocínio, cabe enfatizar que a polícia não comunica previamente a data da diligência, como também o Banco Central não divulga o minuto exato em que aperta o botão da fiscalização.

E um banco, sobretudo depois de atravessar uma tempestade institucional, deveria saber que credibilidade não se reconquista distribuindo calendários. No mercado, algumas perguntas que continuam sem resposta têm destinatário. Se havia urgência para proteger os interesses do banco, por que tanta antecedência? Se não havia urgência, por que convocar uma assembleia extraordinária, quando um simples ato normativo determinaria que a área jurídica do banco acionasse os suspeitos?

Entre uma hipótese e outra, sobra espaço para a dúvida. E ficar sobre o muro no sistema financeiro, rende juros mais altos do que qualquer aplicação. É sabido que cavalo selado não passa duas vezes. Em Brasília, contudo, parece que ele passa devagar, relincha, olha para trás, espera meia hora para uma fotografia oficial e ainda entrega o endereço do estábulo.

Depois, quando alguém pergunta por que o cofre apareceu vazio, sempre existe quem proponha comprar um cadeado novo. O problema é que cadeados nunca foram feitos para proteger lembranças.

A crise que atinge o BRB tem uma característica curiosa, porque produz um mercado paralelo de versões. E narrativas, quando encontram silêncio institucional, costumam correr mais rápido que notas oficiais.

Talvez – e só talvez – o jogo de Nelson Souza seja para mostrar explicação técnica, perfeitamente razoável e juridicamente impecável. Talvez o anúncio antecipado da convocação seja apenas o cumprimento rigoroso de formalidades societárias. Talvez, claro. Porém, o problema é que o mercado não negocia apenas ações, e sim confiança, um ativo extremamente sensível à percepção.

Na administração pública e no sistema financeiro, a forma de comunicar uma decisão pode produzir tanto impacto quanto a própria decisão. Quem administra uma instituição do porte do BRB sabe que cada palavra movimenta cifras invisíveis. Não basta agir corretamente; entretanto, é preciso transmitir a impressão de que o tempo trabalha a favor da instituição, e nunca da dúvida.

No fim das contas, permanece uma velha lição aprendida muito antes dos modernos manuais de compliance, onde o melhor cadeado é aquele instalado antes que alguém pense em arrombar o cofre, não depois que ele aparece vazio. Dentro desse cenário, a sensação predominante é a de que o aviso chegou antes da fiscalização, e quem perde não é apenas a comunicação. É a credibilidade, patrimônio que nenhum banco consegue recomprar no mercado.

Nelson Souza errou. Supõe-se – uma mera suposição, não um imperativo categórico – que o presidente do BRB deu um recado criptografado aos ladrões do banco, para que se desfaçam dos seus bens e de seu dinheiro (não o dos paraísos fiscais) porque haverá uma caçada aos ladrões. Mas 30 dias, para quem quer fugir da cadeia e viver como um nababo fora do país, sem tornozeleira eletrônica, é, repita-se, um período imensurável.

O presidente do Banco de Brasília, que foi germinado na mesma horta que fez florescer Paulo Henrique Costa, estaria, dizem os analistas de mercado, agindo como um clone de seu velho companheiro da Caixa Econômica Federal. E para salvar os amigos, plagiou a franquia Corram que a polícia vem aí.

O ministro Luiz Fux não está disposto a ser enganado. A governadora Celina Leão, garante gente que entra em seu gabinete sem bater na porta, está engasgada com a situação. Contaram para ela, em tom de plágio fazendo paródia com o poema de Drummond, que o BRB, como Minas, não há mais. E agora, Nelson? Vc não é sem nome, Fux sabe disso. Essa AGE serviu apenas para dizer à velha confraria dos ladrões que eles têm tempo de se desfazer de tudo, para não perder seu patrimônio, e, pior, ir fazer companhia a PH.

Sigla por sigla, NS (não de ‘não sei’) entrou num jogo perigoso. Mesmo porque, ele sabe de muita coisa e continua jogando dinheiro para o ar como criança brincando de bolinhas de sabão. E a Polícia Federal está monitorando tudo. O que vem por aí é um tiro no pé com reflexos imediatos nas urnas de outubro. Se Celina não rugir alto, entendem os analistas financeiros, o Abre-te Sésamo será ouvido e a caverna com o fruto do roubo será esvaziada. Os ladrões contam com o tempo a seu favor. Porque o que Nelson fez, foi mandar um recado curto e grosso, traduzido como ‘fujam e evitem a prisão’.

A farsa da festa forjada caminha para o fim. Está sendo fácil adquirir mansões nos lagos Sul e Norte, no Park Way e aquelas suspensas, como os Jardins da Babilônia, no Sudoeste e Noroeste. BNB e CEF não são BRB. Mas os corruptos cabem em um mesmo balaio.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras.

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