Imunidade simbólica
Café com leite
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Eu confesso: às vezes tenho uma vontade imensa de gritar “café com leite” quando a vida inventa uma fase que eu claramente não me inscrevi para disputar.
Para quem cresceu jogando na rua, “café com leite” era categoria especial. Nem totalmente dentro, nem totalmente fora. Uma espécie de imunidade simbólica para quem ainda não estava pronto para a intensidade do jogo. Era a cláusula de proteção da infância.
A vida adulta, porém, aboliu essa possibilidade. Não há rodada experimental. Não há árbitro compreensivo. Você acorda e já está oficialmente escalada para partidas que não escolheu: boletos, despedidas, recomeços, responsabilidades afetivas e profissionais que chegam sem aviso prévio.
Ulrich Beck falava da “sociedade de risco”: vivemos expostos a incertezas estruturais que não controlamos, mas pelas quais somos individualmente responsabilizados. A fase difícil aparece e ainda esperam que você jogue bem. Com postura. Com equilíbrio emocional. De preferência produtiva.
É nesse momento que a vontade de gritar “café com leite” surge. Não por imaturidade, mas por exaustão. Porque ninguém nos perguntou se queríamos esse campeonato específico. Porque algumas fases parecem deslocadas, duras demais, técnicas demais para quem só queria uma temporada tranquila.
Mas há algo curioso: mesmo sem a proteção simbólica da infância, seguimos jogando. Não com a leveza despreocupada de antes, mas com outra habilidade, a consciência. Anthony Giddens diria que a modernidade nos obriga a uma reflexividade constante: precisamos interpretar a própria trajetória enquanto a vivemos.
Talvez gritar “café com leite” hoje não signifique desistir. Signifique admitir vulnerabilidade. Reconhecer que nem toda fase foi escolhida, mas ainda assim pode ser atravessada.
No fundo, o desejo de pausa é humano. O que muda é que agora não há quem nos coloque automaticamente na categoria protegida. Somos nós que precisamos criar nossas próprias zonas de respiro.
E, se não der para sair do jogo, ao menos que seja com alguma dignidade estratégica: escolher as batalhas, economizar energia, saber quando recuar.
Porque, diferente da infância, a vida adulta não tem imunidade.
Mas ainda permite consciência.
E consciência, embora não nos coloque como “café com leite”, nos ensina a jogar melhor mesmo quando não pedimos para estar ali.