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Escrito nas estrelas...

Caio Fernando Abreu e o Van Gogh de Dona Irene

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Fotos Acervo Pessoal

Eis que estava aqui no aconchego da sala admirando a réplica quase original de “Os Lírios”, famoso quadro de Van Gogh, quando a minha esposa, a Dona Irene, me despertou do transe: “Amor, você acredita que o Caio Fernando Abreu morou aqui no nosso apartamento?”. Levo alguns míseros segundos para concatenar as ideias aqui na cachola, que ainda estava presa a 1889, ano em que aquele Vincent, em momento de profunda inspiração, saiu do amarelo e atiçou a tela com verde e azul.

– Sério?

– Sério!

– Não acredito!

– Pois acredite!

Antes de prosseguirmos nessa discussão, que já bem sei quem vai vencer, haja vista todas as anteriores e, certamente, as futuras, minha mulher me esfrega na cara a certidão vintenária.

– Tá vendo?

– O quê?

– Aqui, ó, seu bocó!

Como não encontro o nome do Caio Fernando, a Dona Irene me explica que ele havia comprado o apartamento no nome dos pais. Aliás, até quem vendeu a propriedade para o famoso escritor foi o Leozinho, que ainda mora aqui no prédio. Mesmo assim, ainda era difícil acreditar nessa história, por mais que eu desejasse. Isto é, até que a minha esposa, em um gran finale, me mostra uma fotografia do Caio Fernando aqui na nossa sala, posando próximo à janela. Touché! Não é que ela estava certa?

Volto a olhar o Van Gogh preso à parede, mas a minha mente viaja até a crônica “A Morte dos Girassóis”, do Caio Fernando. Apesar de não ser um grande conhecedor de sua obra, já li e reli esse belo texto algumas vezes ao longo dos anos. Meu devaneio me transporta para uma suposta relação entre a crônica e o quadro. Nada a ver ou, ao menos, não consigo vislumbrar qualquer paralelo entre os dois. Insisto, mas logo deixo de lado tal tese.

Algo me perturba. Lembro que o Caio Fernando e eu ocupamos o mesmo espaço, mesmo que em épocas distintas. Será que ele escreveu algum conto ou crônica ou sei lá o quê cá onde estou? Bah! Aqui estou eu, carioca, me fazendo de gaúcho, tamanha a perplexidade que me domina.

Inquieto, preciso tomar um ar. Convido minha amada para beber um café na esquina. Já na portaria, olho a Getúlio. Em frente, o movimento no Bar do Vavá anuncia que hoje tem Colorado.

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