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Jornalismo embrionário

Campanha suja fuça lixo em carroça de boi

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

Ainda faltam meses para o eleitor apertar os botões da urna, mas a capital da República acaba de inaugurar oficialmente a temporada do esgoto eleitoral. E, pelo andar da carruagem, nem será preciso esperar o horário gratuito nas emissoras de rádio e televisão, porque a lama saiu mais cedo do que os santinhos.

A bola da vez atende pelo nome de Celina Leão (PP). Nesta segunda, 13, manchetes espalharam, em letras garrafais, que a governadora teria virado sócia de um empresário do transporte coletivo. Manchete, convenhamos – e aprendi isso ao longo de mais de cinco décadas de jornalismo -, é um bicho curioso. Quando quer informar, informa; se é para sugerir, insinua; e quando quer condenar sem dizer, basta deixar que o leitor complete a frase.

No caso da ‘sociedade’ ardilosamente orquestrada, há o detalhe que alguns títulos preferiram deixar escondido no rodapé que a tal parceria não envolve uma garagem repleta de ônibus, uma concessionária de transporte ou uma participação acionária no sistema que movimenta milhões de passageiros. Trata-se de um embrião de gado PO — Pura Origem — adquirido em copropriedade, com pagamento parcelado.

Questionada, sem ter o que esconder, Celina respondeu de forma direta: é sócia de um embrião, não de uma empresa de ônibus. Isso pode até parecer uma distinção pequena para quem vive da manchete de impacto, mas, jurídica e politicamente, faz toda a diferença.

O curioso é observar a velocidade com que um embrião bovino ganhou rodas, motor, catracas e itinerários urbanos. Em poucas horas, o que era genética animal virou frota de ônibus na imaginação dos estrategistas de campanhas adversárias.

Desde março de 1970, quando ingressei no jornalismo pelas portas da frente do Correio Braziliense, acumulei conhecimentos suficientes para dizer que Brasília conhece esse roteiro. Sei, por exemplo, que quando faltam fatos robustos, cava-se o terreno em busca de qualquer pedaço de barro que possa ser moldado em escândalo. Não importa se é um grão de areia; o importante é que pareça uma montanha.

Nas últimas horas, houve quem ressuscitasse, inclusive, a velha história da “Bezerra de Ouro” dos tempos de Joaquim Roriz. Essa, porém, é uma associação serve mais ao efeito teatral do que à lógica. Afinal, bastou lembrar que Celina trabalhou naquele governo para que a arqueologia política retirasse dos porões um caso de décadas atrás, como se a cronologia fosse uma prova e a coincidência histórica substituísse evidências.

Nunca é tarde lembrar que a política brasiliense sempre teve memória seletiva, com escândalos inteiros sendo esquecidos quando eles interessam aos amigos, e desenterram-se fósseis quando o alvo é conveniente.

Não se sabe quem lançou essa peça no tabuleiro da sucessão. Qualquer tentativa de apontar um autor seria mero exercício de adivinhação. Contudo, é impossível ignorar o ambiente em que ela surgiu, em um cenário de forte disputa política, em que decisões administrativas — como a política tarifária do transporte coletivo — alimentam tensões e ampliam o espaço para ataques entre adversários.

O problema é que, quando a campanha desce a esse nível, todos perdem. É o caso do eleitor, transformado em consumidor de insinuações; dos jornalistas que fazem uma imprensa embrionária, criando manchetes que sugerem mais do que demonstram; como perde, também, a política, que troca projetos por dossiês, propostas por escavações e debate público por guerra de lama.

A impressão é que alguém resolveu substituir o plano de governo por um detector de metais enferrujado, desses que vasculham lixões à procura de qualquer objeto que possa render um escândalo de ocasião. Entendo que se este episódio for apenas o primeiro capítulo, convém ao brasiliense providenciar botas de borracha, porque a campanha de 2026 promete menos debate de ideias e mais mergulhos em valas.

No fim das contas, talvez o verdadeiro embrião revelado não seja o de um animal de elite. É o nascimento de uma eleição em que a sujeira ameaça disputar mais votos do que os próprios candidatos. E lixo, como é muito fuçado, costuma feder. Algo do tipo de frase atrás de um caminhão limpa-fossa: “Cuidado. Se bater, vai dar merda”.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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