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Exaustão

Cansadas de Pagar pela Violência que Não Criamos

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Nós odiamos ter que nos curar das coisas que não foram nossa culpa. Há algo profundamente injusto em perceber que a responsabilidade pela reconstrução quase sempre recai sobre quem foi ferida, e não sobre quem feriu. Nós não escolhemos o trauma, não consentimos com a quebra, não provocamos o dano e, ainda assim, somos nós que precisamos juntar os cacos, reaprender a confiar, reorganizar o corpo e a memória para seguir vivendo.

Existe um cansaço moral nesse processo. Não é apenas dor; é exaustão. A exaustão de ter que explicar o que aconteceu, de ter que justificar limites, de ouvir que “o tempo cura” como se o tempo fosse um gesto ativo de reparação. Simone de Beauvoir já nos ensinava que a opressão não termina quando o ato acaba ela continua nas consequências que recaem sobre quem a sofreu. Curar-se, muitas vezes, é lidar com os efeitos prolongados de algo que nunca deveria ter acontecido.

Nós também aprendemos que o mundo prefere a nossa superação à nossa verdade. É mais confortável nos ver “fortes” do que indignadas. Mais aceitável que estejamos bem do que queiramos responsabilização. Hannah Arendt alertava que a ausência de responsabilidade é uma das formas mais eficazes de perpetuar a violência. Quando ninguém responde pelo dano, a cura vira obrigação solitária.

A literatura contemporânea tem sido clara sobre isso. Annie Ernaux escreve a partir do corpo que lembra, do corpo que carrega marcas que não escolheu. Não há romantização do processo, há lucidez. Curar não é bonito, não é linear, não é inspirador o tempo todo. Curar é trabalhoso porque exige reorganizar uma vida que foi interrompida sem aviso.

Nós não odiamos a cura em si. O que odiamos é a injustiça estrutural que a torna necessária. O que odiamos é a inversão ética que transforma vítimas em responsáveis e agressores em passado mal resolvido. Clarice Lispector já escreveu que a lucidez dói e dói porque nos mostra que muitas dores poderiam ter sido evitadas se houvesse cuidado, escuta e limite.

Que isso fique como aprendizado coletivo, sobretudo para nós: curar-se do que não foi nossa culpa não nos torna fracas, revela o quanto fomos violentadas. E ainda assim, seguimos. Não porque seja justo, mas porque merecemos viver inteiras apesar da injustiça. A vida continua quando transformamos a culpa que tentaram nos impor em consciência, e a consciência em fronteira. Nós não pedimos para nos curar, mas já que precisamos, que seja sem culpa, sem silêncio e sem esquecer quem realmente deveria ter sido responsabilizado.

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