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Quico sifu?

Caputo tropeça no próprio slogan político

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes/IA

Advogado de alto quilate, com sangue nas veias de uma ilustre família de juristas, nem por isso Kiko Caputo vem apresentando credenciais suficientes para ser o próximo ocupante do Palácio do Buriti, cuja cadeira mais alta ele pretende disputar nas eleições de outubro. Seu primeiro e grosseiro erro, bem primário, foi aceitar um slogan chulo criado por seus marqueteiros, que soa pejorativo aos ouvidos do eleitor: “E o Kiko?” Ora, ouve-se nas ruas, nas mesas de bares, ‘o quico’ é problema dele. E o pré-candidato, assim, vai tropeçando no próprio bordão.

Kiko precisa entender que na política, palavras e slogans importam, sobretudo em tempos de comunicação instantânea, onde um bordão mal escolhido pode se transformar em tiro no próprio pé antes mesmo da largada oficial da campanha. Memes e as redes sociais estão aí para provar.

É exatamente aí que mora o problema do pré-candidato ao Governo do Distrito Federal Kiko Caputo, do Partido Novo. Ao apostar no slogan “E o Kiko?”, a intenção da equipe parece evidente em criar uma frase curta, popular, de fácil memorização e capaz de despertar curiosidade. Em tese, um recurso clássico do marketing político moderno. Na prática, porém, o efeito sonoro e cultural da expressão produz justamente o contrário.

No ouvido do eleitor brasiliense médio, “E o Kiko?” não remete imediatamente ao candidato. Remete ao velho deboche popular. Tudo porque a expressão “E o quico?”, pronunciada praticamente da mesma forma, consolidou-se no imaginário popular como sinônimo de desdém, ironia e desprezo. É a frase usada para diminuir uma reclamação, ridicularizar um argumento ou simplesmente dizer “e daí?”. Em outras palavras, trata-se de uma expressão associada à irrelevância.

E marqueteiros experientes sabem que política é território onde percepção vale ouro. Tanto que, ao ouvir “E o Kiko?”, parte significativa do eleitorado tende, inconscientemente, a completar:

— “E o quico?”

— “Quem liga?”

— “Que diferença faz?”

— “E daí?”

Ou seja, tem-se um slogan criado para aproximar que pode acabar gerando escárnio involuntário. Pior ainda: adversários experientes não desperdiçam munição gratuita. Em Brasília, onde a disputa eleitoral costuma ser sofisticada nos bastidores e cruel nas redes sociais, um bordão desses oferece material pronto para memes, montagens, vídeos irônicos e chacota digital em escala industrial.

É o tipo de erro que não nasce da má-fé, mas da bolha. É justamente por isso que muitas equipes de marketing político passam tanto tempo tentando criar frases “populares” que acabam esquecendo de ouvir o povo de verdade. O resultado são slogans que funcionam numa sala refrigerada da agência dos marqueteiros, mas soam desastrosos na rua, no bar, no grupo de WhatsApp e na padaria da esquina.

No caso de Kiko Caputo, o problema se agrava porque ele tenta construir uma imagem de gestor moderno, técnico e racional, associada ao Partido Novo. Um slogan que beira o humor involuntário acaba enfraquecendo justamente a seriedade que o candidato precisa transmitir para disputar um eleitorado cansado de aventuras políticas.

Campanhas vencedoras normalmente escolhem palavras que evocam força, esperança, segurança, mudança ou competência. Jamais expressões que, por associação cultural, remetam ao desprezo. Talvez ainda haja tempo para corrigir a rota. Porque, em política, quando o eleitor começa a rir antes da urna, dificilmente termina votando.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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