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Marcio, Helena, Lucas

Cara de choro faz judeu abrir carteira e pagar água

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Reprodução/Freepik

Dizem que essa história aconteceu em Porto Alegre. Na verdade, eu até sei os nomes dos personagens: Lucas, Marcio e a sua filha, a pequena Helena, que não é a de Troia, mas bem que poderia ser, tamanha a sua capacidade de captar os olhares de todos. Magnetismo puro, apesar dos seus oito anos, quase nove.

Pois bem, o Marcio havia matriculado a menina em uma aula de natação. E lá estavam os dois saltitando pelas largas calçadas da capital gaúcha, quando, de repente, surgiu o Lucas. De tão amigo do Marcio, o Lucas fez questão de acompanhá-lo nessa missão importantíssima para o futuro da natação nacional. Afinal, vai que a Helena se torne uma prodígio nesse esporte e ganhe várias medalhas nas próximas olimpíadas.

Durante o trajeto, Helena, tagarela como ela só, disse que sua avó materna era judia. Lucas sorriu e falou que ele era judeu. Até falou que o seu sobrenome era Hoffmann. Pronto! Formou-se um laço quase instantâneo por conta dos elos de uma história marcada por perseguições. Tanto é que o Marcio, que é Petracco, se sentiu um pouco deslocado da conversa. Todavia, curioso como ele só, quis saber como aquele bate-papo iria terminar.

A conversa sobre o povo judeu prosseguiu até pouco depois do trio entrar no clube, onde a pequena Helena iria seguir os seus firmes passos até o ponto mais alto nos futuros jogos olímpicos. Isso se a professora, uma mulher enorme, cabelos loiros, olhos azuis mais azuis até que os azulejos da piscina, não começasse a gritar ordens e mais ordens. Só faltou exigir que todos os alunos lhe prestassem continência.

A aula prosseguiu, a pequena Helena parecia resistir a qualquer impropério da professora de natação. Já o Marcio queria porque queria arrancar a sua garotinha das garras daquela enorme mulher, que parecia uma caricatura de militar de pantufas. Todavia, foi contido pelo Lucas. Ademais, a professora era bem maior do que o Marcio. Perigava ele tomar uma surra.

Terminada a aula, Helena foi direto para o vestiário a fim de se trocar. O Marcio, todo orgulhoso, imaginou que a sua filha era durona, pois havia resistido a tanta brutalidade. No entanto, assim que a menina saiu, ele percebeu que estava enganado. A pequena Helena surgiu com o rosto mais choroso que uma menina de quase nove anos poderia ter. Os dois se abraçaram e choraram juntos.

O Marcio disse para a filha não se preocupar, pois ela não precisaria ser uma campeã de natação. Ele falou para a Helena que ela já sabia nadar muito bem cachorrinho. Aliás, esse estilo de nado ela havia aprendido muito mais com o Coco e o Cacau, que são os dois cachorros do Marcio, do que com ele. É que o Marcio não é o que podemos chamar de grande adepto das braçadas em águas com mais de 30 centímetros de profundidade. O lance dele é mesmo a música.

O Lucas ficou tão emocionado com a situação, que foi abraçar aqueles dois. Nisso, a Helena fez um bico e disse que estava com sede. O Lucas, então, disse que iria pagar uma água para a menina, que sorriu aquele sorriso mais largo do que boca de sapo.

Já no caminho de volta, Lucas se despediu do amigo e da menina. O Marcio e a Helena continuaram a caminhada. Nisso, ele para e pergunta para a filha se ela está melhor. A menina, ainda com a garrafa de água nas mãos, responde: “Estou ótima! Eu só queria ver se eu conseguia fazer o Lucas me pagar uma água”.

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