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Gloriosamente grávida

Carne e sangue

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Aproximava-se o momento. Pela enésima vez, a Mãe mirou com carinho e medo a barriga da Filha, gloriosamente grávida.

“Deusa, por sua graça, reduza ao mínimo a minha dor, quando ocorrer a passagem”, suplicou. Mas sabia que sua prece, repetida com pequenas variações por todas as mulheres que a precederam, não seria atendida, tinha vívidas na mente as expressões de pavor e sofrimento de sua própria Mãe, na hora da transmissão.

Dias depois, sua Filha iniciou os trabalhos de parto. Estava rodeada apenas por mulheres, parteiras e curadoras; não havia médicos naquela dimensão, salvadores treinados que os sacerdotes garantiam existir em outros planos do multiverso. A (ainda) Mãe deu de ombros. Talvez fosse verdade. E não fazia a mínima diferença.

Aguardou na sala, tensa, até ouvir, vindo do quarto ao lado, um choro débil. As auxiliares chegaram para anunciar-lhe o nascimento, mas não era preciso, os sorrisos em seus rostos fatigados informavam que tudo correra bem.

A Mãe mais velha entrou no quarto para abraçar a Mãe mais nova e a neta recém-nascida. As parteiras e curadoras retiraram-se, o que viria a seguir seria apenas das três.

No quarto, a jovem Mãe assistia em silêncio as manifestações de carinho da agora avó para com a neta. Finalmente, falou:

— Mãe, chegou a hora.

A mulher mais velha concordou em silêncio. A mais nova prosseguiu:

— Aqui ou na sala?

— Tanto faz, pode ser aqui mesmo.

Os olhos da jovem brilharam. Aproximou-se devagar, com um sorriso que mostrava dentes subitamente aguçados. Suas unhas transformaram-se repentinamente em garras afiadas. A velha Mãe recordou algo que, segundo os sacerdotes, existia em outro plano, a transubstanciação. De acordo com os adeptos de uma religião chamada catolicismo, o pão e o vinho consumidos durante um ritual religioso tornam-se milagrosamente o corpo e o sangue de uma divindade salvadora.

“Entre nós também existe transubstanciação”, pensou. “Mas o transmitido não é algo associado a um deus, são conhecimentos práticos de como cuidar de uma criança, quais ervas ajudam a baixar uma febre, quais auxiliam na cicatrização de um ferimento, coisas assim. Quando eu deixar de existir, todo o meu conhecimento será incorporado por minha filha, agora Mãe”.

Quando a jovem Mãe começou a dilacerar o corpo da Mãe mais velha, sua boca manchada de sangue, manifestou-se outra diferença entre a transubstanciação no plano dos católicos e naquele. Não havia nada simbólico na dimensão em que as duas estavam, a jovem Mãe teria de, literalmente, devorar a carne e beber o sangue da mais velha, para absorver-lhe o conhecimento.

“Deusa, por sua graça, reduza ao mínimo a minha dor”, suplicou a Mãe que logo deixaria de sê-lo. Uma derradeira prece que, ela sabia, não poderia ser atendida.

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