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Hipocrisia de quem pune

Carol Solberg e a luta contra o silenciamento político no esporte

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@donairene13 - Foto Divulgação

Há quem repita como um mantra, que política e esporte não devem se misturar. Eu considero isso impossível. Porque tanto a política quanto o esporte fazem parte daquilo que nos constitui como seres humanos. Somos seres que disputam, que organizam regras, que constroem coletivamente sentidos, que se posicionam diante do mundo. O esporte é prática social. E toda prática social é atravessada por valores, escolhas e poder, ou seja, por política.

O caso de Carol Solberg é exemplar. A atleta do vôlei de praia foi suspensa pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) por “conduta antiesportiva”, após comemorar publicamente a prisão de Jair Bolsonaro durante uma etapa do Circuito Mundial. Como punição, Carol não poderá disputar a primeira etapa da competição em 2026, em João Pessoa.

É preciso dizer com clareza: a decisão pela punição de Carol não foi motivada por sua performance esportiva. Não foi por uma infração técnica, não foi por desrespeito às regras do jogo, não foi por trapaça. Foi por uma manifestação política. E se a manifestação é política, a punição também o é.

Quando uma federação decide que determinado posicionamento extrapola os limites aceitáveis, ela está tomando uma decisão política sobre quais discursos podem ou não ocupar o espaço público. O rótulo de “conduta antiesportiva” torna-se, nesse contexto, uma desculpa para enquadrar opiniões que desagradam.

Mas a politização do esporte não começa nem termina aí.

É política a decisão de excluir um país dos Jogos Olímpicos em razão das ações de seu líder. É política a escolha de impor sanções esportivas como forma de pressão diplomática. É política, também, a decisão de sediar uma Copa do Mundo em um país que sequestra e expulsa migrantes, que viola direitos humanos e que restringe liberdades civis. Nessas situações, raramente se ouve o mesmo coro pedindo “neutralidade”.

A verdade é que o discurso da neutralidade costuma aparecer seletivamente, quase sempre para silenciar determinadas vozes, e não outras. Quando atletas defendem causas consideradas “aceitáveis” ou alinhadas aos interesses dominantes, são celebrados como engajados. Quando se posicionam de forma incômoda, são acusados de misturar o que não deveria ser misturado.

O esporte sempre foi palco de disputas simbólicas. Do gesto de punho cerrado de atletas negros contra o racismo às campanhas por igualdade de gênero, a história mostra que as arenas esportivas são também arenas políticas. Não porque atletas queiram “estragar o espetáculo”, mas porque são cidadãos antes de serem competidores.

Carol Solberg continua sendo atleta, com títulos, treinos, dedicação e talento. O que está em debate não é sua capacidade de jogar vôlei. É seu direito de existir como sujeito político em um espaço que prefere fingir que só corpos competem, mas consciências devem permanecer caladas.

Política e esporte sempre estiveram misturados. O que se discute, no fundo, é quem pode falar e quem deve se calar.

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