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Para sempre

Cartas de eterno amor preservadas para ensinar novos poetas

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Arquivo

Escrevo estas linhas para que a história que vou contar não se perca no esquecimento. Julguei que ela merecia ser partilhada: é uma história de amor com idas e vindas, com drama, com feridas, e sem a obrigação de um “final feliz”, como tantas outras da mesma natureza.

Relato aqui o amor de um poeta por sua musa. Não uma musa impassível, mas uma presença viva e receptiva, que também amava o seu poeta.

Conheceram-se na Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, num tempo já longínquo, quando as estrelas pareciam mais brilhantes e as noites, mais silenciosas. O poeta, gordinho e desajeitado, trazia no corpo e no temperamento o rastro de antigas dores amorosas. Ainda assim, ao vê-la, soube: era ela. Definitiva. Para sempre. Chegou até a casa da moça porque era amigo do tio dela, e, pouco a pouco, foi se infiltrando na rotina familiar, frequentando jantares e conversas como quem apenas “passa por perto”, quando, na verdade, já habitava o lugar com o coração inteiro.

Insistia em ser aceito; e ela, altiva e independente, fazia o pobre poeta sofrer, não por crueldade, mas por uma espécie de liberdade que não se negocia. Até que um detalhe, quase banal, inclinou o destino. Em certa ocasião, conversando com o pai da moça sobre casamento, o poeta afirmava que as mulheres, em sua opinião, deviam ser independentes e jamais se submeterem a seus maridos. A moça entrou no recinto no meio daquela fala. Houve, ali, uma espécie de reconhecimento: ela percebeu que, aceitando ser cortejada e casando-se com ele, talvez encontrasse um marido diferente dos outros, alguém que não lhe exigiria a vida pequena, a alegria amputada, o confinamento da “mera dona de casa”. E, após idas e vindas de um breve romance, a moça, bela e esguia, apaixonou-se definitivamente pelo poeta pobre e ainda sem rumo na vida.

Detalhe, registro original de casamento de Yedda e Schmidt.

O compromisso, algum tempo depois, ganhou forma oficial. Conforme comprova documento do registro civil da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República:

“Aos vinte e oito de novembro de 1936, nesta cidade do Rio de Janeiro, na sala da casa da rua Dom Geraldo número 5, (…) após as formalidades legais, receberam-se em matrimônio sob o regímen da comunhão de bens, Augusto Frederico Schmidt e Yedda Ovalle Lemos, que passa a assinar Yedda Lemos Schmidt, ele nascido nesta capital federal, em dezoito de abril de 1906, solteiro, do comércio, filho legítimo de Gustavo Schmidt e Anita de Azevedo Schmidt, residente na rua Candido mendes número 21; ela solteira, nascida nesta capital em seis de abril de 1912, filha legítima de Caio Lustosa de Lemos e Praxedes Ovalle de Lemos, residente a rua Djalma Ulrich, 115.(…)”

O casal transitou por alguns endereços em Copacabana, até se estabelecer, em definitivo, no prédio n.º 20 da rua Paula Freitas, onde Yedda viveu até sua morte, anos depois de ficar viúva de seu Augusto.

Yedda Schmidt retratada por Candido Portinari

Não tiveram filhos. Yedda sofreu alguns abortos espontâneos, no início da gestação, algo que entristecia muito o marido, a ponto de ele escrever poemas sobre o berço vazio, sobre a casa que aguardava em vão, sobre os próprios traços que não seriam transmitidos a ninguém. Viveram juntos até 1965, quando, em 8 de fevereiro, o poeta partiu deste mundo. Yedda o seguiu muitas décadas mais tarde.

Mas o que desejo recordar, sobretudo, são as cartas de amor que ele deixou para a amada. Reunidas em livro em 1981, elas trazem um espírito de verdadeiro devotamento, como só os poetas parecem saber dedicar às suas musas e, ao mesmo tempo, uma intimidade concreta, doméstica, humana: a grande poesia convivendo com a cena simples de um presente carregado na rua. Há trechos como estes:

“Assistir a teus olhos se acenderem às primeiras horas da noite. Escutar, talvez, a tua voz se erguer pequena e doce para os céus úmidos das lágrimas das estrelas. Esperança de descansar, enfim, dentro do teu coração pacificado. Esperança das ilusões já dispersas! Esperança das ambições apagadas com o fumo de queimadas extintas depois da hora das chuvas.”

Augusto Frederico Schmidt, 1941

“Yedda, aí vai o doce de leite. Presente de velha, ou, no máximo, de namorada de roça. Já ri bastante de mim mesmo, empunhando o frasco na rua. Nunca pensei carregar doce na minha vida.”

“Nunca tive em minha vida num estado tão completo de poesia. Amo-te acima de todas as coisas e quero te dizer humildemente que bendigo tudo o que sofri até então em minha vida, toda a aspereza que me foi preciso enfrentar, pela graça de ter te encontrado.”

“Nenhuma outra pessoa senti, até hoje, como este poder sobre mim, como você. E tudo que senti, até hoje, pelas outras, foi efêmero e sem existência nenhuma. Tenho diante de seus longos e tão justos silêncios tentado mil outras viagens a almas que não a sua. Mas volto sempre e, cada vez mais, pobre e desanimado. Você é a marcada, a eleita, entre todas, para este poeta irremediável, que não poderá, em verdade, ser outra coisa.”

“Todas as terras e lugares no mundo me lembram você. Você é a minha pátria.”

Yedda e Schmidt, 1956.

“Abriga-me, acolhe-me, deixa que eu exista em ti, meu porto, fim e origem do que sou.”

“Vontade que tuas mãos desçam como pássaros que se recolhem nas fendas das torres, sobre a minha cabeça fria da cinza das tardes. Vontade de ser acalentado pelo teu sorriso, pelo teu silêncio de primavera.”

E é por isso que estas linhas precisam sobreviver. Porque, quando um amor deixa cartas, ele cria uma segunda vida, independente, para si: não vive apenas no que aconteceu, mas no que permanece legível. Nas cartas, a paixão não se reduz ao enredo do casal, nem às datas do calendário, nem às moradas por onde passaram. Ela se torna linguagem e, sendo linguagem, resiste ao desgaste do tempo e ao esquecimento. Ao reler essas palavras, entende-se que Yedda não foi apenas “a mulher do poeta”: foi pátria, porto, origem e destino. E o poeta, por sua vez, não foi apenas um homem enamorado: foi alguém que soube transformar a devoção em forma, e a vida em permanência. Se há um sentido em recordar esta história, é este: provar que certos amores, mesmo atravessados por perdas e limitações, conseguem vencer a morte ao menos num lugar — na memória dos que leem e se inspiram.

………….

Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor de Notibras, poeta, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro.

 

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