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Torna a Surriento

Caruso

Publicado

Autor/Imagem:
Claudio Carvalho - Foto Francisco Filipino

Dali se via o mar inteiro. Ele brilhava e o vento soprava forte como a fatalidade.

Do terraço do quarto, em frente ao Golfo de Sorrento, o mar se abria sem obstáculos. A água, à noite, não era apenas negra. Era cinza escura, cortada por riscos de luz vindos dos barcos e dos vapores que ainda cruzavam a baía.

Deveria haver um Vesúvio por ali, além de dentro do peito daquele homem só. Ele deveria ser como uma sombra inteira, parada, ocupando o fundo do horizonte. Não se viam detalhes, apenas o volume pesado contra o céu.

Mais distante, talvez, quase no limite do olhar, alinhavam-se pequenas luzes fracas fugindo em direção de Sorrento. Não se distinguia a cidade em si, apenas o golfo e uma sucessão de pontos luminosos acompanhando a curva da costa, como se alguém tivesse marcado a borda do mundo com fósforos acesos. Ou como uma boca imensa a devorar a luz.

O ar trazia cheiro de sal e carvão queimado. De vez em quando, um apito de navio atravessava o silêncio e se deixava morrer sobre a água.

O vento subia eloquente pelas paredes do hotel e atravessava o corpo daquele homem como uma lâmina fria. Lá embaixo, as ondas batiam contra as pedras com a regularidade de quem não precisa provar nada a ninguém.

Encostado no parapeito, respirava curto. O peito já não obedecia como antes. Havia dias em que cada fôlego parecia emprestado. Não sabia exatamente se era uma doença ou simplesmente a saudade.

Então, ele viu o casal. Um homem abraça uma mulher. E ele imaginou, pelos movimentos corporais, que ele havia chorado ou estava chorando.

O homem passou a mão pelos cabelos dela. Tentou rir de alguma coisa que não chegou aos ouvidos do senhor solitário do terraço. O homem só limpa a garganta com um pequeno pigarro, como se fosse começar a cantar uma canção conhecida como Torna a Surriento. Mas, ele percebe que não tem sequer naquele momento o consolo de fingir numa canção aquela dor profunda que deveras sente. E que uma vez fingida e apresentada a um público, ainda que apenas imaginado, se torna ao menos mais suportável.

Dizer…

“- Eu te quero tanto. Te quero tanto bem, sabe?”

Dizer… ao menos para ele, é mais fácil numa canção do que na vida real. Uma corrente parece subir pela espinha e dissolver seu sangue dentro das veias. Ele se sente confortado por estar em seu conhecido quarto, no Grand Hotel Vesúvio, sua casa em Nápoles. E pensa nos elefantes e sua viagem final em direção ao local onde nasceram.

Então, a lembrança veio inteira, como uma nota que se sustenta sem esforço, como uma cena de teatro. Porém, mais dolorosas por parecerem reais. Até que ponto são reais as cenas que lembramos? A mulher de que lembrava não era a mulher ali embaixo. Era outra. Muito distante. Uma jovem de olhos verdes que ele conhecera na América, num tempo em que o corpo ainda respondia e o futuro parecia uma estrada aberta. Os olhos verdes como o mar… Aqueles olhos que o olhavam da coxia quando ele cantava. Aqueles olhos que pareciam perplexos sem saber se amavam àquele homem ou se admiravam o artista. Aquela expressão de alguém que desconfiava de si própria por desejar um homem tão mais velho e por sonhar ficar ao lado de uma pessoa tão acima de seu mundinho vulgar de camareira de teatro.

Ele fechou os olhos por um instante. Abriu. E viu as luzes no meio do mar. Pensou naquela temporada na América. Nas luzes dos teatros. No Metropolitan Opera House… Mas aquelas eram apenas pequenas lâmpadas e as brancas faixas criadas pelas hélices iluminadas. Imaginou as notas de um piano tocando forte. Viu a lua sair por detrás de uma nuvem. A lua no golfo eram mais doces do que a morte. Sentiu os gostos e os cheiros do passado como quem reconhece um vinho antigo. Tudo aquilo confirmava apenas o que já estava perdido.

O casal lá embaixo continuava abraçado. Será que eles sabem a sorte que têm? Será que sabem o quanto aquele momento é eterno mesmo que os dois se esqueçam? Terá ela olhos também verdes e perplexos? Dali não dava para ver. Até o mar era apenas supostamente verde. Os olhos dela eram verdes como o mar. Com certeza! Disso ainda podia se lembrar e lembraria ainda que seu coração parecesse arrebentar o peito e perder o compasso. Seus olhos improvisaram uma sutil lágrima. E ele acreditou estar se afogando.

“- Eu te quero tanto. Te quero tanto bem, sabe?”

E ele pensou que, nas óperas, no canto lírico, onde qualquer drama é uma mentira, onde os sentimentos e os rostos são protegidos pelas máscaras da maquiagem.  Aquele seria um bom começo de uma peça. Um tenor de meia idade, uma mulher apaixonada, um amor ameaçado por conveniências, diferenças financeiras e intelectuais, doença, distâncias… Entraria a orquestra. Cresceria o som. O sofrimento viraria espetáculo.

Mas ali não havia música. Nenhum violino para sustentar o gesto simples do abraço longo do casal lá embaixo. Nenhum maestro para ditar os tempos. Só o vento e o ruído rude e constante do mar. Pensou então em quantas vezes cantara a dor diante de plateias inteiras. Morrer de amor. Sofrer por ciúme. Clamar por perdão. Tudo com voz plena, gesto preciso, lágrimas que vinham na hora certa. O público acreditava. Aplaudia. Alguns choravam.

Mas era mentira.

Os dois olhos que olhavam para ele desde o passado eram verdade. E pareciam ali tão perto. E tudo se tornou pequeno. E o coração se contraiu. Tudo era minúsculo como as noites lá na América. Numa quase vertigem, ele esqueceu todas as palavras e seus pensamentos se confundiram. Ele conseguiu, não sem esforço, livrar-se da vertigem ao se virar e fixar os olhos sobre a faixa branca de uma hélice. Sua vida prendia-se apenas à faixa branca e distante de uma hélice. Será assim que a vida termina? E fechou de novo os olhos para não pensar tanto. E abriu os olhos outra vez.

O casal havia desaparecido.  Para onde foram? Seguiram juntos ou cada um tomou um caminho? O terraço voltou a ser apenas pedra, mar e vento. E seu peito voltou a ser apenas solidão.  A lembrança da jovem de olhos verdes persistia. Mas era quase imperceptível como o que restava nele de respiração.

A América… Tão distante agora quanto uma nota que já terminou de soar. Tão terminada como deixar o palco depois dos aplausos e ir para o hotel sozinho. O peito doía. Enquanto doesse, era sinal de que estava vivo. Nas óperas, mesmo a morte vem acompanhada de uns acordes finais e de um silêncio respeitoso depois da última nota. E ele odiou a plateia por aplaudir até a morte. Apoiou as mãos no parapeito. Na vida real, o fim chega sem orquestra. Sem plateia. Sem explicação.

Nápoles, 2 de agosto de 1921.

“Morreu hoje, em um quarto do Grand Hotel Vesúvio, em Nápoles, o tenor Enrico Caruso, aos 48 anos. O artista, que vinha sofrendo há meses de graves complicações pulmonares decorrentes de infecções e pleurisia, faleceu sozinho durante a madrugada. Considerado uma das maiores vozes da ópera mundial, Caruso deixa uma carreira marcada por triunfos nos principais teatros da Europa e dos Estados Unidos. O corpo será velado em Nápoles, sua cidade natal, onde se espera grande comoção popular.”

…………………….

Claudio Carvalho é autor de poemas, prosa, teatro, letras de música, textos acadêmicos. Trabalhos literários recentes: O Canal (romance, BH, Caravana, 2021) e 365-D: a corda esticada entre o vazio e a coisa amada (poemas, RJ, Fonte das Palavras/Clube de Autores, 2023), Rolando e a Bola (infantil, Editora Elementar, 2015). Graduado em História, Mestre e Doutor em Letras e pós-doc em Estudos Culturais, sempre na UFRJ. Professor do INES, RJ, no Ensino Superior. Pela Mondru, publicou o livro de poemas Cem Sem Zen Sonetos (2025). Seu lançamento desse ano é o Bar Latino-América (Mondru; 2026), crônica de uma geração que viveu na contramão.

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