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Picada na aranha

Celular de médico vira google maps e mulher chega lá com facilidade

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Evito o máximo que posso a fissura pelas redes sociais. Do mesmo modo que uso celular apenas para me comunicar com a família e amigos, utilizo o computador somente para pesquisas de trabalho, leitura de jornais, sites e revistas e, na melhor das hipóteses, receber informações. Está aí meu problema com relação ao atraso dos fatos que fogem do controle da mídia diária. Com alguns dias de atraso – talvez semanas – li em um desses blogs de notícias teoricamente desinteressantes que um supermercado austríaco teve de ser evacuado por causa de uma aranha de espécie brasileira que provoca ereção permanente em homens acima da idade limite para circular serena e solenemente entre as caranguejeiras e as pererecas errantes.

Entre as lamentações sobre o tempo perdido, me dei conta de que os detalhes do informamento eletrônico eram sui generis. Na verdade, meu perfil cabia inteirinho na notícia, inclusive com cores, tamanho e veneno. Para início de conversa, o tal mercado atende pelo codinome Penny. Preta e vermelha – as cores do nosso Flamengo –, a espécie de aranha mede dez centímetros, pertence à família Ctenidae e normalmente chega à Europa escondida em cachos de banana. Fora os laços familiares, tudo a ver comigo. Achei que, finalmente, meus problemas haviam acabado.

Ledo engano. Eles estavam postos e continuariam ad perpetum. Percebi isso ao tomar conhecimento do laudo de um exterminador contratado pela gerência do mercado para dar fim ao abusado aracnídeo, considerado um dos mais venenosos do mundo. Conforme o especialista em aranhas alheias, uma picada da bicha pode causar, além da ereção permanente, mas dolorosa, hipotermia, convulsões, visão turva e até a morte em poucas horas. Depois de detida leitura na matéria veiculada na BBC e nos relatos médicos, conclui que nem só de aranhas vive o homem.

Diante de todas essas constatações, decidi voltar ao meu mundinho analógico. Nele, não corro riscos. Acho que a decisão foi a mais acertada. Aliás, estou pensando seriamente em também abandonar o celular. Por que? Porque ouvi de um senhor na fila do INSS que essa maquininha de fazer loucos é a arma mais poderosa do planeta. É uma máquina mortífera. E vejam que, a exemplo da obsoleta bomba atômica, ela foi inventada pelo ser humano. Não quis saber da lógica do cidadão. Preferi usar as minhas.

Posso estar enganado, mas, do mesmo modo que o esper matou zóide, o celular aniquilou com uma série de aparelhos moderníssimos no meu tempo, entre eles o telefone fixo, a TV, o relógio, a câmera fotográfica, o rádio, a lanterna, o videogame, o calendário de mesa, a carteira, o cartão de banco e até o computador. Até aí a gente aguenta. O pior é que essa arma, hoje nas mãos de qualquer recém-nascido, também é capaz de gerar ereções virtuais e embaraçosas, daquelas que poluem mentes puras como a minha, matam casamentos, desandam famílias e geram filhos indesejáveis.

Rompi definitivamente com esse tal de telefone móvel quando na sala de espera de um ginecologista ouvi atentamente à consulta que antecedeu a de minha mulher. Logo após iniciar os rotineiros exames de dedo aqui e dedo acolá, o médico atendeu a uma ligação no celular. “Onde você está?”. Sem tirar o dedo anular da chumbrega da moça, o doutor começa a explicar: “Primeiro vire à esquerda. Passando a padaria, vire novamente à esquerda e siga em frente. Em seguida, dobre à direita e pronto. Será que você consegue assim?”. Nesse momento, a paciente sussurra: “Doutor, se o senhor for explicar de novo, quem vai chegar lá sou eu”. Minha mulher está proibida de voltar àquele consultório.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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