DESTINO CRUEL
CHARRETES DA PRAÇA: TURISMO, PROTEÇÃO E O FIM NO FRIGORÍFICO
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Manoel Santo, sessenta e seis anos, pai de doze filhos, morador do beco da Charneca, marido de dona Bichinha, era o mais antigo carroceiro do lugar. Ficou apavorado quando ouviu de seus colegas Olavo e Bilu que a prefeitura decidiu que não haveria mais espaço para esse tipo tão antiquado de transporte. Sujava e enfeava a cidade que se queria, agora, turística, aliando o antigo ao moderno. À custa de alguns mil contos, um casario velho da cidade, bem no centrinho, em roda da praça, mudou de cara. Ganhou telheiro novo, pintura nas portas e janelas, uma graça. Virou hotel, restaurante, lojinha de artesanato. A velha estação, em vias de ser demolida, foi inteiramente reformada. Quase se escutava o apito da Maria-Fumaça, que já não passava há muito tempo, prestes a chegar, fumegante, com suas toneladas de ferro e fogo. A igreja matriz de São João, tão maltratada, havia recebido de fora um arquiteto especialmente para pesquisar os dourados de seus altares, recuperando-lhes o brilho original. Os taxistas fizeram financiamento para trocar seus Fords e Chevrolets dos anos 40 por modelos novos em folha, cheios de luxo e cromados. O projeto era, todo dia, comentado na gazeta de Claudinho Manso, aliado do prefeito, e a cidade assumiu essa nova vocação.
Mas e Manoel Santo, Olavo e Bilu, que ganhavam a vida com o frete em carroças puxadas à tração animal?
— O que é isso, gente, não se pode fazer com nós uma coisa dessas… Dez dias pra aposentar as carroças? Onde vamo trabaiá? — lamentava-se, choroso, Manoel Santo.
— Pois é, Mané, são favas contadas. Agorinha há pouco ouvi do Zé Antônio lá na porta da prefeitura. E a Câmara apoiou tudo, hein… Nem fizeram alarde — explicou Olavo.
Bilu, que era o mais pessimista de todos, também pai de numerosa família, tinha os olhos marejados:
— E não adianta nem se ajuntar. Quem é que, no meio desse povo, vai defender os carroceiros? O que eu vou fazer com os animá?
Na verdade, Manoel Santo, Olavo e Bilu ficavam com a parte mais leve do trabalho. Era a alimária, puxadora de carroça, que encontrava, na faina diária, a mais absoluta dureza, tendo que faiscar as ferraduras naquelas ruas de pedra, às vezes parando ao fim do dia apenas, após inexorabilíssimos cansaços.
O prefeito, firme no propósito de acabar com aquilo, deu um ultimato. E recorreu a um secretário para ir falar com os carroceiros, explicar a decisão. Eles ficaram desolados. Em dez dias, não mais que isso, aposentariam de vez as velhas carroças, e que resolvesse, cada um, o que faria com seus animais, que eram como parte da família, bem alimentados, bem limpos, conhecidos até pela população local.
Manoel Santo tinha o baio Zelão, forte, de pescoço largo e uma magnífica crina, muito bem tratada. Olavo, a égua Manhosa, branca com manchas pretas, mais velha, porém mansa e obediente. Bilu, um cavalo meio pangaré, feio e teimoso, chamado Xavante, mas que ele, com paciência e carinho, sabia conduzir bem. Os carroceiros, no entanto, foram salvos por uma grande ideia, dada por um alto funcionário da prefeitura do local. Ele havia ido a algumas cidades que se diziam turísticas há mais tempo, e vira que, na praça principal de quase todas elas, havia charretes que encantavam turistas. Por que não aproveitar a experiência dos antigos carroceiros com essa atração nova?
A proposta, rapidamente encampada pelo alcaide, pareceu mais simpática do que relegar os pobres velhos a uma amarga miséria. E, então, Manoel Santo, Olavo e Bilu tiveram a esperança de permanecer naquele mundo, não como representantes de uma raça extinta, mas como, eles próprios, atrações turísticas do local. Era a glória!
— Ah, Jesus, agora sim tamo arrumado! Vou continuar podendo ajudá meus fio e meus neto — comentou, aliviado, o dono de Zelão.
Os três concordaram com a ideia de usarem o chassi de suas velhas carroças para transformá-las em lindas charretinhas de pintura colorida, com bandeirinhas penduradas e a estampa de personagens infantis, para o que chegaram a obter um subsídio da prefeitura.
Inaugurou-se o serviço na praça da cidade em dia de domingo, com festa e bandinha de música. Cada nova charrete ganhou uma plaqueta com identificação, os números 1, 2 e 3, com os dizeres: “Prefeitura Municipal” e “Charrete Autorizada”. Se a vocação turística do lugar vingasse, e os turistas chegassem em bom número, o prefeito iria autorizar mais charreteiros, mas Manoel Santo, Olavo e Bilu ficariam com o pioneirismo.
E o negócio deu certo. O povo da cidade era simpático e hospitaleiro, vários começaram a se dedicar ao acolhimento dos turistas, ao pequeno comércio. As especialidades de muitas donas de casa eram vendidas como pratos típicos, na janela das casas. Assim, conheciam-se os pastéis de fubá, as natas, as compotas, os bolos de rolo temperados com canela e recheados de goiabada. Guias turísticos improvisados passaram a se embrenhar nos matos e campos com os viajantes para mostrar-lhes cachoeiras, grutas, fontes de água cristalina, ditas medicinais, e até mesmo um cemitério, há muito desativado, onde, sob sepulturas de mármore com anjos esculpidos, repousavam alguns barões e marqueses que, no passado, representavam a glória e a riqueza da região.
Em quatro anos, a cidade trocou de prefeito, estava mudada, vindo gente de todo lado, economia aquecida. Foi até matéria no jornal da capital. E os agora charreteiros, felizes, eram quase celebridades. Todos queriam tirar fotos com as lindas charretinhas enfeitadas, as crianças ficavam loucas para passear com os “titios dos cavalinhos”.
Manoel Santo, Olavo e Bilu, em princípio sem concorrência, riam de satisfação. Brevemente, contudo, outros charreteiros se juntaram ao serviço, homologados com a plaqueta do governo local, mas havia clientela para todos. Nenhuma diminuição de serviço, nem de faturamento.
Foi por essa época que a sorte dos trabalhadores mudou mais uma vez.
Saiu numa coluna do jornal de Claudinho Manso que os charreteiros maltratavam muito os animais, que, extenuados, trabalhavam o dia inteiro e até à noite. Os turnos organizados e os horários de descanso, em alta temporada, não eram obedecidos. Crianças levadas puxavam a crina dos cavalos. Charreteiros estalavam os chicotes no lombo das alimárias para que não fraquejassem ao subirem certas ladeiras mais íngremes nos circuitos turísticos tradicionais pelo centro da antiga cidade. Os automóveis, convivendo com o transporte dos turistas, espantavam os bichos, que sofriam. Um dia, a charrete de número 6 teve o cavalo destrelado em pleno passeio, porque pisou em falso numa pedra e luxou a pata. Os animais eram criaturas que sentiam, afinal de contas, e precisavam de proteção. Quem seria por eles?
Uma empresa particular havia comprado uma vasta área nos arredores da cidade e terminava de construir um parque balneário, com lagos artificiais, piscinas e até uma queda d’água. O turismo seguiria outros rumos. E talvez não se ressentisse da norma que o novo prefeito baixou: “fica proibida a exploração e a circulação de charretes de tração animal na cidade”. O serviço estava abolido. Afinal, os animais, pobres coitados, careciam de dignidade, cuidado, carinho, e não uma exploração absurda que excedia os limites da saúde.
Desta vez, a preocupação de Manoel Santo, Olavo e Bilu foi um pouco menor. Afinal, o primeiro havia conseguido se aposentar. Ficara feliz da vida, por poder abandonar a faina diária e estar mais tempo em casa, cuidando de sua horta, lá no beco da Charneca, onde a contribuição de Zelão era pastar sossegado. Olavo conseguira um emprego no parque balneário, de auxiliar de serviços gerais, e Manhosa, coitada, morrera de velha. Bilu, com alguma doença renhida, fora levado para Belo Horizonte por uma de suas filhas, para se tratar e descansar na velhice, enquanto Xavante iria gozar seus dias finais no sítio de um outro filho do ancião.
Os novos charreteiros é que reclamaram. Haviam investido nas charretes, tinham-nas como fonte de renda e o sustento da família. Mas era “não” e pronto. Um vereador da cidade, autointitulado protetor dos animais, fizera uma crítica contundente àquela mancha na praça principal. Os animais eram tristes, magros, extenuados.
Houve sim, alguns pontuais problemas nesse sentido, mas os detratores das charretinhas estavam sendo rigorosos demais. A maioria dos charreteiros tratava muito bem os animais, que se alimentavam, eram limpos, dormiam, protegidos, deixando o trabalho à hora conveniente.
Não adiantaram os argumentos dos charreteiros, que haviam ido em comissão ao chefe do Executivo.
As charretes adquiridas ou fabricadas, com todos os seus atrativos e enfeites, se tornariam inúteis. Não poderiam mais circular.
A política local, sem embate, comemorou a vitória. Disseram que, dali em diante, eram civilizados, não fomentavam mais a exploração dos animais, que tinham sentimentos e mereciam dignidade.
Com o tempo, o cenário se ajeitou, embora a cidade turística houvesse perdido um certo encanto que a cor e a alegria da circulação dos turistas naquele peculiar meio de transporte conferiam. Os charreteiros, derrotados, acabaram encontrando outras colocações para trabalhar. As charretes pararam em fundos de quintal, em fazendolas, ou abandonadas em ruas menos movimentadas. Com o passar dos anos, seriam engolidas pela deterioração normal.
Os animais, finalmente liberados do trabalho repelido pela vigência de novas ideias na política local, mais uma vez enriqueceram os donos, ainda que um pouco. Foram todos comprados, a preço razoável, pelo Rodolfo Garcia, dono do matadouro e do frigorífico, e tiveram um destino bem menos literário do que Zelão, Manhosa e Xavante.
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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor do Café Literário, juntamente com Eduardo Martínez e Cecília Baumann. Poeta e contista, além de advogado e professor universitário no Rio de Janeiro.