Beberagens
Chás milagrosos garantiram meio pau a Aristarco até 92 anos
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Sempre atento às crendices populares e aos ensinamentos dos mais velhos, voltei ao túnel do tempo e cheguei às beberagens de minha avó Anastácia Pederneira. Índia uruguaia, ela era craque na preparação caseira de ervas supostamente terapêuticas. O supostamente é por minha conta, pois, enquanto viveu, se limitou ao cozimento medicinal de ervas. Geralmente desagradáveis no gosto, as bebidas produzidas por ela eram santos remédios para todo tipo de doença, inclusive para unha encravada, remela no olho, virilha assada, além de espinhela e pinto caídos.
Do tipo cobaia amiga do início do século 20, meu avô Aristarco Pederneira viveu até 92 anos e, até onde eu sei, morreu com o vigor a meio pau. Tudo porque um dos principais experimentos de vovó ainda não havia sido testado pelos laboratórios farmacêuticos. Embora haja controvérsias, foi dela a primeira experiência medicamentosa que resultou no atualíssimo e inquestionável Viagra. Me lembro como se fosse hoje, vovó Anastácia testando folhas variadas e cozidas em banho maria na velha e boa panela de argila.
Foram ervas de todos os paus. Devido à pressa como a mestra das raízes manuseava e batia a imensa quantidade de especiarias, não me preocupei com as anotações. Entretanto, estão guardadas na memória todas as formas utilizadas por vovó até que a fórmula do chá finalmente estivesse concluída. Na própria relva, ela dispunha de grossos talos de Tiririca do Brejo, os quais, quando misturados com talos de Pata de Vaca, Cana do Brejo, Beringela, Pau-Tenente e Pau-Ferro, geravam o chamado Chá de Picão ou Chá de Pau-Barbado.
São chás que ainda hoje fazem parte da dieta medicamentosa de homens, mulheres, crianças e, principalmente, idosos. Famosa como reguladora da diabetes e do colesterol, a tal poção nunca foi mágica. Todavia, por conta de sua força de dentro da fora e dos compostos retirados da diversidade filamentosa da clorofila das plantas, recebeu de vovó Anastácia um nome imbrochavelmente singular. Como a beberagem era uma mistura de todas as filas, nada mais natural que o Chá de Picão ou de Pau-Barbado fossem batizados de chá de todas as filas.
Não tenho informações mais precisas, mas tudo me leva a crer que o Tadalafila de nossos dias tem tudo a ver com as milagrosas infusões de vovó. Como não tenho certeza de nada, até hoje mantenho as máximas que ela levou para o túmulo, mas deixou escrito na mesinha de cabeceira para que copiasse. Entre as mais eloquentes, destaco aquela que credita o cultivo de ervas boas ao simbolismo do amor-próprio e a que afirma que cuidar de uma planta é cuidar do próprio coração. Nenhuma delas, porém, é tão profunda como a que diz que o silêncio das plantas fala alto para a alma.
Senti isso logo após o fim da folia dedicada a Momo. Cansado da guerra física, emocional e sem sexual dos quatro dias de samba, suor e cerveja, acordei nas cinzas do benjoim, do alecrim, da alfazema, da guiné e da arruda defumada. Como não tinha anotações, meu chá acabou virando um fuzuê. O pau barbado e o picão viraram história. Mesmo desfilando como mestre-sala no bloco do eu sozinho, fazendo o percurso do sofá para a cama, meu pacotão de chá virou uma charada. Foi aí que resolvi beber alguma coisa para me acalmar. Desisti ao ler o que estava escrito na caixa: Mate. Diante de tanto pau, meu medo foi morrer sem ver a Shakira e ter de enfrentar sob sete palmos os demonizados chás de Pau Roxo e de Picão-Preto. Meu Deus! Se ainda puder, prefiro o de Mil Homens.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras