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Balela familiar

Chuva que molha golpistas purifica Eduardo no Catar

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto Reprodução

Uma pessoa se torna grande não pelo seu tamanho, mas sim por suas atitudes. E não importam o tamanho delas. O inverso é proporcionalmente idêntico. Os pequenos de consciência, de caráter e, sobretudo, de bons pensamentos um dia se entregam. A casa cai e nem sempre consegue ser recuperada. Quando isso acontece, não fica de pé por muito tempo. É o caso do clã Bolsonaro, cujos integrantes estão bem distantes da imagem que tentam colar nos seguidores desinteligentes. Como qualquer ser humano normal, eles não são exemplo de pureza, tampouco de integridade, probidade, honestidade e patriotismo. A diferença entre os Bolsonaro e o cidadão comum é que eles foram eleitos com o discurso da moralidade e querem se manter com a auréola de santos. Felizmente, não convencem mais.

Pelo menos o grande público já está pra lá de vacinado contra a balela familiar. Há um pensamento de autoria desconhecida que afirma que não adianta querer ser o que você não é. Cedo ou tarde suas escolhas entregam sua essência. Para esses eu diria: Não se perca tentando ser melhor do que ninguém. Esforce-se somente para dar o melhor de você e jamais viva para impressionar os outros. Para os obstinados seguidores do clã, tudo bem que não queiram ser o que são. Eles podem ser o que quiserem. Sugiro que tenham cuidado para que não sejam apenas o que o mito ou seus descendentes querem ou determinam. A frustração, a decepção e a dor tendem a ser dilacerantes. Acordem enquanto há tempo. Despertem do sonho enquanto ele não se transforma em pesadelo.

Nesse contexto, vale novamente lembrar uma célebre frase do escritor moçambicano Mia Couto: “Na guerra, os pobres são mortos. Na paz, os pobres morrem”. Ou seja, se a briga, o ódio e a divisão são obras da política e dos políticos, saibam que, um dia, eles se entendem. Nós, os que matam e morrem, perecemos. É a lei. Todo esse longo preâmbulo para concluir que a principal faceta do lobo que se faz de ovelha é querer ser o que não se é. E esse tipo de gente me causa pena e ojeriza, dois sentimentos antagônicos, mas perfeitamente convergentes se tivermos um pouco de paciência. Basta um mínimo de percepção para reconhecermos nessa personagem que sua necessidade de perfeição é uma sentença condenatória à rejeição. É só uma questão de tempo.

Deixando de lado os entretantos, temo pelo futuro mental dos rebeldes sem causa, aqueles que optaram pela guerra gratuita. Como a reversão cidadã normalmente ocorre pela dor ou pelo amor, a vitória da democracia deveria ser encarada como o primeiro suspiro para uma reação. Tudo é uma questão de a necessidade se tornar necessária. Não esperem a frustração alcançar a alma e o coração. Foi o que disse nessa segunda-feira (28), por meio do zap zap, a um desses patriotas e quase ex-amigo logo após o fim do jogo Brasil e Suíça. Na verdade, repassei para ele uma imagem do deputado federal Eduardo Bolsonaro assistindo in loco ao jogo da Seleção no Catar. Não tenho informação, mas tudo indica que ele (o deputado) já está por lá há algum tempo. Obviamente que sim, pois ninguém vai a Doha de um dia para o outro.

Como cidadão, é claro que ele tem o direito constitucional de ir e vir. O problema é que, em lugar de cumprir agenda em Brasília como parlamentar, estava passeando, enquanto os seguidores de sua pregação golpista sofrem com o sol e a chuva em frente aos quartéis das grandes cidades do país. Na mensagem do zap, só alertei a meu interlocutor que a chuva que molha é a mesma que purifica a alma. Sinceramente, não sei se ele entendeu. O que posso dizer é que, no meio de uma manifestação em frente ao QG do Exército, em Brasília, o quase ex-amigo, cético, esbaforido e pouco receptivo, me respondeu com palavrões diversos, os quais, no primeiro momento, não identifiquei se para mim ou para Eduardo Bolsonaro. Depois entendi que eram para ambos. Entre apalermado com a notícia e possesso por minha alusão ao patriotismo de fundo de quintal, reagiu afirmando que vai continuar lutando pelo Brasil.

Antes, porém, se dirigiu ao filho daquele como um filho daquela, a quem acusou de abandonar a luta pela deslegitimação da eleição vitoriosa de Luiz Inácio. Tenho dó, mas é um direito dele. O que fazer com quem só pensa no próprio umbigo? Nada, a não ser pedir a Deus para que o ajude a também comprar uma passagem para o Catar e ingressos para o jogo de sexta-feira , dia 2, contra a seleção de Camarões. Afinal, não é prudente, tampouco glamoroso, ficar tomando chuva e recebendo vaias e xingamentos nas ruas do Brasil, enquanto um dos chefes da patriotada desconexa e sem noção se diverte nababescamente na cidade construída em um deserto no coração do Oriente Médio. Mais uma vez recorro a Mia Couto para encerrar esta narrativa: “Cada um descobre seu anjo tendo um caso com o demônio”. Tirem suas conclusões.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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