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Capitães do asfalto

Cicatrizes do empreendedorismo infantil

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Quando Gilson, meu melhor amigo de infância e filho do sargento Bornes, tentou me convencer, fiquei meio cabreiro e por demais receoso. Era uma ideia muito ousada e inusitada para os parâmetros da nossa turminha do colégio, mas também muito sedutora: conquistar uma fonte de renda própria e assim não dependermos mais da mesada dos nossos pais.

Tínhamos dez anos e cursávamos a 7ª série do ensino fundamental no egrégio colégio Santo Ângelo, localizado na cidade gaúcha de mesmo nome. O pai do Gilson, além de militar de carreira, era professor de Educação Física de todas as turmas masculinas do colégio, uma figura muito conhecida e respeitada em toda a cidade.

— Mas, Gilson, isso não vai dar rolo com o seu pai? E minha mãe também não vai gostar nada disso.

— Depois contamos para eles, Jota! Não tem nada de mais, o Gildásio, nosso amigo da vila São Carlos, me falou que é muito fácil…

— Tá, ele é gente boa, mas aonde temos que ir e com quem temos que falar mesmo?

— Ele nos apresenta lá na sorveteria e abona a nossa ficha. Anotam nossos nomes, em que colégio estudamos e o nosso endereço, só isso!

Ainda temeroso, topei a empreitada e, acompanhados pelo Gildásio, lá fomos nós na primeira hora do domingo até a sorveteria “Gostosura das Missões” começar a nossa carreira de vendedores de picolés.

Admirávamos os meninos que (orgulhosamente) exerciam o ofício e tinham a sua renda pessoal garantida. Eles eram conhecidos como “picolezeiros” e também como “capitães do asfalto”. Trabalhavam em torno de todos os lugares importantes e movimentados da cidade: cinemas, colégios, quartéis, igrejas, feiras e eventos em geral.

Após o registro devido, recebemos os isopores cheios de picolés de variados sabores. Fomos orientados para, ao fim do dia, devolvermos os isopores, os picolés porventura remanescentes e a féria do dia, ocasião em que receberíamos a nossa comissão de acordo com as vendas.

Deram-nos também um cordão contendo uma plaquinha com o símbolo da sorveteria e a recomendação de sempre portarmos o relicário quando estivéssemos exercendo a atividade.

— Isso é muito importante, garante a nossa segurança, disse Gildásio.

A fim de incrementar o faturamento e ampliar a clientela, propus ao Gilson incluir no nosso cardápio mais um produto: livros, gibis e revistas de fotonovelas que eu colecionava há algum tempo.

Já na posse dos produtos, rumamos para a Catedral – maior igreja católica da cidade – para abordarmos o público da missa das nove horas. Além da alça do isopor carregado de picolés em um ombro, eu levava uma sacola de pano com as revistas em outro.

Depois de boas vendas no entorno da igreja, paramos para almoçar na carrocinha de cachorro-quente do grupo “Delícias das Missões”.

— Viu só, além dos picolés, vendi também muitas revistas em quadrinhos, principalmente do Homem-Aranha, comentei com o parceiro inicialmente descrente da boa aceitação das revistas.

— É verdade, também vou catar algumas revistas lá em casa para vender no próximo domingo.

— Só não entendi quando alguns clientes perguntavam se eu era filho do sargento Bornes e, quando eu respondia que era, ficavam com os olhos esbugalhados e cara de quem viu um ET, comentou Gilson, incomodado.

— É que você é a cara do teu pai e ele é muito conhecido na cidade, expliquei.

— E daí? O que tem a ver a calça com a cueca? Povo estranho!

— Deixa para lá, acho que é só curiosidade, falei, inocentemente.

— Só acho essas placas da sorveteria penduradas no nosso pescoço meio bregas.

— Também acho, vamos colocar para baixo da camisa.

Depois de concluído o almoço, dirigimo-nos para o maior cinema da cidade a fim de alcançarmos o público da sessão das 13 horas. Novamente, rendeu ótimas vendas.

Após os cinéfilos terem adentrado o cinema, ficamos sozinhos e sentamos nos degraus da escadaria para descansar um pouco.

— Nada mau para iniciantes, não é mesmo? comentou, Gilson, entusiasmado.

— Dou o braço a torcer, amigo, você teve uma grande ideia. Olha só, já vendemos a metade dos picolés e das revistas, vibrei

Foi então que a porca começou a torcer o rabo para o nosso lado. Dois indivíduos corpulentos e mal-encarados aproximarem-se de nós.

— Moleque, deixa eu ver que picolés você tem no isopor, disse um dos elementos para Gilson.

— E que revistas você tem aí? Questionou-me o outro.

Antes que pudéssemos responder, o primeiro segurou a alça do isopor que Gilson carregava e desferiu um violento pontapé que jogou o meu amigo escadaria abaixo. O outro torceu dolorosamente o meu braço e ordenou:

— Moleque, coloca o isopor no chão e me entrega as revistas!

Sem possiblidade de reação frente à superioridade física do agressor, obedeci a ordem do meliante e fui socorrer Gilson.

Os dois agressores pegaram tudo e um deles grunhiu com voz ameaçadora enquanto a dupla se afastava do cinema:

— Agora fiquem quietinhos aí se não quiserem se machucar mais!

— Você está bem? Perguntei ao amigo que se retorcia dolorosamente no chão.

— Acho que sim, a barriga ainda está doendo por causa do pontapé. E você? Perguntou ele, ofegante.

— Até que você teve sorte, pensei que tinha quebrado alguma coisa. Meu braço ainda está doendo, mas vai passar.

Olhamos em volta para tentar avistar algum policial…e nada!

— O que vamos fazer? questionou Gilson.

Nunca antes tamanha raiva tinha aflorado dentro de mim.

— Vamos seguir esses desgraçados, isso não pode ficar assim!

— Mas o que podemos fazer? Eles são perigosos e muito mais fortes do que nós! Pelo menos não levaram o dinheiro das vendas.

— Não imaginaram que já tínhamos vendido tanto. Vamos tentar segui-los sem que eles percebam, no caminho podemos cruzar com policiais e aí denunciamos o roubo.

Um tanto relutante, Gilson concordou, levantou e nos preparamos para seguir os maus-elementos. Nisso, Gildásio apareceu com o seu isopor de picolés. Assustado, perguntou:

— O que houve com vocês?

— Fomos agredidos e assaltados, levaram nossos isopores que ainda tinham metade dos picolés.

— Foram aqueles vagabundos que estão caminhando lá adiante, nós vamos segui-los.

Perplexo, Gildásio falou:

— Não acredito que fizeram isso com dois Capitães do Asfalto! Vou chamar alguém e já alcanço vocês.

— Quem? A polícia? Perguntei.

— Não, já volto!

Então ele afastou-se e nós começamos a caminhar rapidamente para não perdermos os bandidos de vista.

Após cerca de vinte minutos de perseguição velada, vimos os dois elementos adentrarem uma viela estreita. Corremos para ver em qual casa eles entrariam. Repentinamente, uma Kombi branca com listras pretas nos abordou e, dela, desceu Gildásio acompanhado de cinco homens – vestidos de preto – ainda mais amedrontadores do que os ladrões que haviam nos assaltado.

— Vocês viram em qual casa eles entraram? Perguntou Gildásio.

— Sim, deu para ver, respondi olhando amedrontado para os acompanhantes do colega “picolezeiro”.

Percebendo nosso espanto com a estampa dos seus parceiros, Gildásio falou:

— Não se preocupem, são “soldados” dos “Capitães do Asfalto”. Agora deixem tudo com eles!

— Apenas digam o que eles roubaram e apontem a casa em que os elementos entraram, falou o que parecia ser o líder do grupo.

Depois de vinte minutos, perplexos, vimos os dois ladrões saírem com os olhos vendados e com as mãos amarradas para trás. Enquanto dois “soldados” conduziam os elementos, os outros três carregavam os isopores e a sacola de revistas.

— Vejam se está tudo aí, falou Gildásio.

Incrédulos, Gilson e eu fizemos a conferência.

— Nesse aqui está tudo certo, disse ele.

— Nesse também e acho que as revistas estão todas aqui, respondi por minha vez.

— Ótimo, agora vocês podem ir prestar contas na sorveteria, retorquiu o nosso agora temível colega.

Atônitos, Gilson e eu nos olhamos angustiados enquanto os ladrões eram empurrados para dentro da kombi.

— Ah, os nossos soldados querem saber se podem ficar com uma revista do “Homem-Aranha”, acrescentou Gildásio.

— Claro, claro, eles podem escolher qualquer revista, uma para cada um! Mas… o que acontecerá com aqueles dois? Perguntei, num sopro de coragem.

— Não se preocupem, apenas será aplicada a lei da rua para quem se atreve a molestar “Capitães do Asfalto” no exercício da sua atividade, agora podem ir, disse Gildásio com uma autoridade impressionante.

Sem mais perda de tempo, Gilson e eu nos afastamos apressadamente rumo à sorveteria “Delícia das Missões”. Após prestarmos contas ao gerente do estabelecimento e recebermos a nossa comissão pelas vendas do dia, respeitosamente, solicitamos o nosso desligamento da organização.

No dia seguinte, a notícia de nossa fugidia adesão aos “Capitães do Asfalto” já era de conhecimento dos pais do Gilson e da minha mãe. Após passarmos pelo duro carão correspondente à gravidade da perigosa iniciativa-empreendedora, ao menos fomos informados que a nossa mesada seria aumentada.

De outro lado, da impensada e desastrada aventura, também resultaram efeitos salutares para a coletividade:

— Gilson e eu organizamos um clube de troca de livros e revistas de todo o gênero no colégio, iniciativa que incentivou os alunos à saudável prática da leitura e, por conseguinte, contou com o entusiasmado apoio do diretor;

— Os “Capitães do asfalto” passaram a vender revistas em quadrinhos juntamente com os picolés e aumentaram substancialmente a sua renda, além de ganharem um vistoso uniforme preto que substituiu a plaqueta brega de identificação;

— Gildásio, por solicitação nossa, foi oficializado “picolezeiro titular” do colégio, obtendo permissão para entrar na escola com o isopor e vender seu produto para alunos e professores na hora do recreio.

Estava tudo bem, mas ainda havia uma pergunta que não queria calar e que incendiava a nossa imaginação:

— Afinal, o que acontecera com os ladrões que nos agrediram e roubaram?

Um dia, encontramos coragem para questionar o “Capitão Gildásio” sobre a situação. Didaticamente, ele nos respondeu:

— Bem, eles alegaram que vocês não estavam com a plaqueta da sorveteria “Delícias das Missões” visível, então isso foi considerado uma atenuante para a ação deles… dessa forma, apenas levaram um bom corretivo e foram definitivamente expulsos da cidade.

— Catatau! E se não tivesse havido atenuante? Questionei de cabelo em pé.

Sorrindo com a astúcia do icônico Don Vito Corleone e com a frieza enigmática do imortal Tommy Shelby, o chefe dos “Capitães do Asfalto” aconselhou:

— Acabou o recreio, melhor vocês voltarem para os livros…

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J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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