Crítica literária
Circunvolucionando: Aventuras e História nas Mãos de Paulo Tadeu Poli
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“Todos os bons livros se parecem: são mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.” – Ernest Hemingway
Circunvolucionando (edição do autor – 1ª edição 2014) nos apresenta Paulo Tadeu Poli, nascido em Cornélio Procópio, Paraná. Sua trajetória é marcada por aventuras e experiências inusitadas: percorreu o mundo, passou pelo Norte do Brasil e se radicou em Martinhos, litoral do Paraná. Talvez por influência de seu pai — desbravador de terras em Cornélio Procópio e Campos Mourão, aviador e político eleito deputado por três mandatos — Paulo também se lançou em um mundo de aventuras desconhecidas, tornando-se piloto de garimpo. Uma carreira surpreendente para alguém formado em ginecologia e obstetrícia.
Foi justamente essa experiência que alimentou a criação de Circunvolucionando, obra que impressiona pela qualidade literária. Paulo escreve com profundo conhecimento dos temas abordados, sem cair no exagero ou pieguice, e nos presenteia com um vocabulário rico e prazeroso, contraste notável com a literatura superficial ou comercial que domina os modismos atuais.
Um Assassinato que Marca o Início
Logo nas primeiras páginas, o leitor se depara com o assassinato do avarento advogado doutor Ortellado. É impossível não lembrar do clássico Crônicas de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, em que o enredo começa pelo final, exigindo do autor habilidade extraordinária para manter o leitor preso à narrativa até o desfecho.
Paulo Tadeu Poli cumpre essa tarefa com maestria, conduzindo a história com ritmo, suspense e riqueza de detalhes.
Narrativa, Memórias e História
A narrativa é construída em primeira pessoa, pelas memórias do velho Luigi, piloto da Regia Aeronáutica Italiana nos tempos de Mussolini. Luigi integra um esquadrão de caças encarregado de bombardear a Espanha durante a Guerra Civil, em apoio a Francisco Franco. À mando de Hitler, Göring utiliza os bombardeios para demonstrar a eficiência de seus aviões, ceifando milhares de vidas.
É nesta jornada que Luigi contribui, de forma indireta, para que Pablo Picasso criasse sua obra-prima, Guernica.
A trama leva o leitor desde a Espanha devastada à Europa pré-Segunda Guerra Mundial, passando por São Paulo — após o nosso anti-herói fugir com espólios roubados — e até navegar pelas águas do rio Tapajós e sobrevoar os céus do Brasil.
Um Labirinto Literário
Confesso que o leitor médio pode se perder na complexidade da trama, se não se agarrar ao fio de Ariadne tecido pelo autor. Paulo Tadeu Poli constrói um verdadeiro dédalo narrativo, que exige atenção e envolvimento, mas que recompensa com uma leitura rica, intensa e memorável.
O autor demonstra que aventura, história e literatura podem se fundir de maneira magistral, oferecendo não apenas entretenimento, mas também reflexão sobre os horrores da guerra, a ética, e o impacto histórico das escolhas individuais.